SEM TRATOR NEM PESTICIDA

Luiz Horta

Publicado em O Estado de São Paulo, 18/5/06, caderno Paladar, p. P7

O mundo dos vinhos não é dado a polêmicas muito rasgadas, talvez pela própria natureza agregadora e cordial da bebida. Mas é evidente que, em meio a leves discussões sobre qual a melhor safra de Bordeaux ou se determinado vinho merece mesmo os 90 pontos concedidos pelo crítico hype de plantão, sempre sobra espaço para alguma controvérsia mais acalorada. Um exemplo prático dessa tensão latente: experimente entrar numa roda de especialistas e mencionar a estranha palavra "biodinâmica". Você verá tremelicarem taças nas mesas e até garrafas nas adegas, pois ela desperta ódios inesperados. O mesmo termo, contudo, é capaz de unir gente totalmente diferente, como um aristocrático alemão cujos sapatos de camurça parecem pouco à vontade num vinhedo; um agricultor alsaciano de aparência rústica; e um inquieto vinhateiro espanhol que usa mulas para arar a terra.

Mas é melhor começar toda essa discussão pelo princípio. E ressaltar que, como parte do mundo da agricultura, a vinicultura passou pela mesma sedução de pesticidas, fungicidas, fertilizantes, surgidos na metade do século passado e vistos então como poderosos aliados dos produtores. Em resumo, os vinicultores caíram de boca na química. O resultado é conhecido: algumas décadas de deslumbramento, depois a ressaca da contaminação, os efeitos daninhos para o solo e para as plantas, a perda de qualidade dos vinhos e o desencanto com os chamados agrotóxicos. Alguns partiram para racionalizar o uso desses produtos, limitando-o a emergências, no chamado "esforço racional"; outros passaram ao orgânico, adotando o controle natural de pestes e fungos, fertilizantes naturais, com excelentes resultados; e os mais radicais abraçaram a biodinâmica.

A biodinâmica nasceu da redescoberta de algumas palestras sobre agricultura feitas pelo criador da Antroposofia, Rudolf Steiner. Com esta base teórica, os biodinamistas passaram a ver o vinhedo de forma holística, tratado como organismo vivo e integrado no meio o que inclui os animais que vivem ao redor, as forças da natureza, as energias do sol, as raízes. O mais conhecido defensor e teórico desta corrente é Nicolas Joly, proprietário do Coulée-de-Serrant, uma pequena e preciosa sub-região do Loire. Joly é o mais atacado pelos racionalistas, que o chamam, sem meias palavras, de doido. Ele dá de ombros: "não fazemos danças rituais nem uivamos para a lua, apenas respeitamos os ritmos das energias na natureza, e os vinhedos são parte dela".

É verdade que a biodinâmica tem práticas excêntricas: uso de chás no terreno para equilibrar carências minerais; chifre de boi com cristais de quartzo moído enterrado em determinadas épocas para manter a energia do solo; uso de esterco de diferentes animais (o que come raízes produz melhor adubo para elas e assim por diante); colheita, vinificacão e engarrafamento regidos pelas fases da lua; aragem por tração animal. Visto assim, é fácil rir da biodinâmica, a prática esotérica de gente esquisita. Só que os vinhos biodinâmicos costumam ser melhores que os da vinicultura tradicional, parecem ter mais presença, mais intensidade, mais...energia.

O fato é que mesmo uma crítica cética como a inglesa Jancis Robinson admite que alguns vinhos produzidos assim são diferentes, que há algo neles a ser pesquisado e é preciso evitar o preconceito. Num recente artigo para o Financial Times, ela adverte que produtores de renome como Lalou Bize-Leroy, coproprietária do Domaine de la Romanée-Conti e dona do seu próprio Domaine Leroy e tantos outros não podem ser desacreditados como um bando de hippies de sandálias pregando paz e amor. Mas já não é um grupo acanhado de produtores artesanais que pratica a biodinâmica.O poderoso Michel Chapoutier, proprietário de extensos e importantes vinhedos no Rhône e na Provença, converteu toda sua produção ao biodinamismo e está em fase de fazer o mesmo na sua vinícola australiana, que já é orgânica.

E Álvaro Palácios, um dos grandes nomes da Espanha, um dos reinventores do Priorato, tampouco é um pequeno produtor, com seus vinhos míticos L 'Ermita e Dofí, além dos extensos vinhedos da família na Rioja e uma crescente produção na nova região do Bierzo. Todas as três vinícolas usam mulas para arar o solo, sendo que o Bierzo, de onde sai outro grande vinho, o Corullón, é totalmente biodinâmico, e no Priorato e Rioja, orgânicos, mas com atenta observação das fases da lua e uso de técnicas holísticas. Palácios diz: "Parece tudo novo, mas os mais velhos sempre souberam que a época de plantar era com lua minguante". Ele chama a atenção para o perigo de que isto seja usado apenas como marketing, um selo a mais para atrair o consumidor. "Pois é toda uma visão de como fazer vinhos, não é um modismo."

Encantamento semelhante envolve o conceito de terroir que, ao pé da letra quer dizer o terreno, e, no sentido dos vinhateiros, tudo que está ali, da geologia à geografia, passando pela climatologia, se o verão foi intenso, se as cegonhas não fizeram sua migração. Neste quesito, o mais falado terroirista do momento é o francês Jean-Michel Deiss, que visitará o Brasil neste mês, como um dos participantes do Encontro Mistral (onde, por sua vez, estarão disponíveis os vinhos de Palácios, Chapoutier e Dr. Bürklin-Wolf; estes produtores, contudo, não virão ao evento).

O esforço de Deiss reflete o ideal de que o vinho de um determinado vinhedo tenha o caráter daquele vinhedo; do chão; e do que as uvas passaram ali até virarem vinho. Por isto ele é reverenciado como o Monsieur Terroir. A ciência não explica, nem concorda, diz que terroir é uma licença poética e que não há provas de que elementos minerais quantitativamente irrisórios possam passar para os vinhos. Mas Deiss não quer engarrafar apenas mais um Riesling alsaciano ou mais um Pinot Gris. Quer engarrafar o vinhedo com tudo que ele conta. Faz lembrar Cézanne mordendo a grama para ver se capturava na pintura o cheiro da erva umedecida pelo orvalho que estava vendo. Ou, como resume com lógica teutônica o produtor Christian von Guradze da Dr. Bürklin-Wolf , primeira vinícola alemã inteiramente biodinâmica: "estamos trazendo nossos preciosos solos de volta à vida e isso aparece de alguma forma nos vinhos".


Observações de V.W.Setzer:

1. O artigo foi transcrito exatamente como no original, obtido deO Estado de São Paulo, versão Digital.

2. A agricultura biodinâmica tem sido praticada e aperfeiçoada continuamente desde que o seu introdutor, Rudolf Steiner, deu um curso de 8 palestras sobre agricultura em Breslau, de 7 a 16/6/1924, publicado como Geistesswissenschaftliche Grunlagen zum Gedeihen der Landwirschaft, GA (Gesamtausgabe, obra completa, 327), com tradução publicada pela Editora Antroposófica sob o título Fundamentos da Agricultura Biodinâmica. Nesse sentido, a frase do autor "A biodinâmica nasceu da redescoberta de algumas palestras..." não é adequada; o que deve ter acontecido é os vinicultores terem descoberto a agricultura biodinâmica.

3. A razão de se procurar evitar o uso de tratores na agricultura biodinâmica é muito simples: devido ao seu peso e à pequena superfície de contato das rodas, eles compactam a terra, prejudicando sua textura e arejamento. Muitas fazendas biodinâmicas usam tratores, preferivelmente pequenos, para trabalhar a terra.

4. Rudolf Steiner era contra a ingestão de bebidas alcoólicas, pois elas prejudicam o desenvolvimento espiritual individual.


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