Elaine Cimino
(Fornecido pela Associação Elo)
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... a verdadeira
cura, a transformação do mal em bem,
dependerá da capacidade da verdadeira arte de fornecer às almas e corações humanos um caminho espiritual. Rudolf Steiner |
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Neste fim do século [a autora referia-se ao séc. XX] a perda de valores e referências é geral. E segue aumentando o número de pessoas que não se encontram mais em si mesmas. A sensação de desordem permeia as relações, o trabalho, a arte, a vida. Na busca de realização, fórmulas milagrosas prometem satisfação rápida e fácil. Mas, essas curas do tipo fast-food instantâneas e efêmeras agem apenas na superfície: tirando-se a camada externa, o que sobra é o caos.
A verdadeira harmonia nasce de dentro para fora. Calma e gradualmente. Para alcançá-la, além de esforço pessoal, são necessários instrumentos adequados, já que pouco serve a força e a vontade de um lenhador se, em vez de um bom machado, lhe for oferecida uma simples faca. E é aí que as artes entram em cena.
O impulso artístico proposto por Rudolf Steiner e formulado pela Antroposofia por meio da euritmia, escultura, pintura e arte da fala é o machado afiado que possibilita ao aprendiz entrar em contato com seus próprios veios. Na busca do elemento artístico específico de cada arte, a pessoa depara-se com o universo dos fenômenos, conhece suas formas de expressão, e pode criar a partir de elementos como equilíbrio, movimento, cor, som, forma, ritmo, etc. A aproximação com tais elementos exige concentração e auto-observação, qualidades que se adquirem durante o próprio fazer artístico.
Ao criar algo completamente novo, saído inteiramente do seu interior, a pessoa trabalha e mostra seus limites ao mesmo tempo em que afirma sua individualidade e valoriza a si mesma. E é assim que, com a ajuda da arte, dá os primeiros passos rumo à superação de si mesma.
O fazer artístico ampliado pela antroposofia é sempre um veículo de expressão da alma. Assim, ele pode ser realizado com duas intenções: uma artística, onde o objetivo é a comunicação plena do artista que segue por um caminho de auto-transformação com o espectador da obra de arte, podendo atuar positivamente sobre este. E outra, terapêutica, onde o fim a ser alcançado é o equilíbrio e a harmonização interna do indivíduo.
O corpo-a-corpo do aprendiz com a matéria barro, madeira ou pedra e a metamorfose da mesma, ensinam e despertam o respeito pelo material e o conhecimento das forças vitais do universo (expansão, contração, volume, espaço, movimento, ritmo e equilíbrio). Aprende-se a criar respeitando as qualidades de cada material, visando captar sua essência e não apenas a sua aparência.
A investigação das cores e de suas características é o ponto de partida para o trabalho do pintor. Ao conhecer as qualidades de cada cor (expansão/contração, movimento/calma...) o indivíduo confronta-se com suas próprias qualidades e dificuldades. Com esse conhecimento ele pode utilizar a essência das cores para revelar muito de si próprio. Veja as páginas com quadros de Gisela Nisch, Inês Benou, Myrian César e Rosa Prado.
Diferentemente das artes plásticas, a euritmia não lida com materiais, mas com um instrumento: o próprio ser humano que, de forma sutil, reproduz com gestos os movimentos realizados pelo aparelho fonador ao cantar e falar. Juntamente com a música e a poesia, o euritmista expressa suas vivências mais íntimas. Segundo Rudolf Steiner, a euritmia é a fala visível. (Ver a seção de euritmia.)
Na fala a pessoa revela-se, traz à tona conteúdos que nem sempre deseja tornar públicos. O estudo e a sensibilização do falar mostra vícios de entonação, expressão, tensões, dificuldades respiratórias etc. Depois de se perceber, o indivíduo pode falar de forma consciente, desenvolvendo as qualidades artísticas da linguagem e expressando-se artisticamente.
A terapia artística fundamenta-se na visão médica, terapêutica e artística ampliada pela Antroposofia de Rudolf Steiner, segundo a qual o homem é um ser constituído de espírito, alma e corpo vivo, e no conhecimento teórico e prático dos elementos das artes e das leis que os regem. Assim, por meio desses elementos, que nas artes plásticas são, por exemplo, cor, forma, volume, disposição espacial, etc., a terapia artística possibilita que a pessoa vivencie os arquétipos da criação, ou seja, se re-conecte com as leis que são inerentes à sua natureza interior mas que foram "esquecidas" por diferentes motivos. Com isso, traz um contato com a essência sanadora de cada um. (Ver a subseção de terapia artística dentro da seção de medicina e terapias antroposóficas.)
O impulso artístico baseado na antroposofia rompe barreiras e chega muito além das galerias, dos palcos e das clínicas de terapia. Crianças carentes, portadores do vírus HIV, excepcionais, estudantes de psicologia e pedagogia, empresários e pacientes de hospitais que conhecem e trabalham com estes princípios, são alguns exemplos da expansão dos domínios da arte.
O mundo está carente de arte. Vivemos um momento muito intelectualizado, onde as pessoas têm medo da arte. Com meu trabalho espero contribuir para que os alunos soltem-se e encontrem-se consigo mesmos por meio das cores, sintetiza Márcia Correia Lourenço, artista formada pelo Centrarte, e professora de pintura nos cursos de Pedagogia e Psicologia da Universidade de Ribeirão Preto e no PRAIDS (casa de apoio a aidéticos).
É a arte ampliando seus limites. Ao ultrapassar o conceito da arte pela arte, ela cresce e passa a exercer uma grande função social. Tanto sobre seus praticantes, como também sobre todos aqueles que têm a oportunidade de, simplesmente, apreciá-la.
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