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Jacira Cardoso
(Publicado na revista Chão e Gente, Nº 32, set. 1998,
p. 10)
No último dia 30 de junho, o movimento antroposófico no Brasil perdeu a convivência com um de seus mais importantes pioneiros, por cuja iniciativa vieram a desenvolver-se, em nosso país, importantes atividades nas mais diversas áreas da Antroposofia. Co-fundador de instituições como a primeira Escola Waldorf brasileira, a Sociedade Antroposófica no Brasil e a Editora Antroposófica, Rudolf Lanz incentivou e apoiou a fundação de muitas outras, acompanhando seu trabalho e contribuindo para seu conteúdo com textos de relevante importância.
Certa manhã paulistana do início da década de quarenta, o jornal O Estado de São Paulo estampava na primeira página uma lista das personae non gratae pessoas que, por decisão do governo brasileiro, eram indesejáveis no País. Estupefato, o jovem Rudolf Lanz, um imigrante húngaro-suíço que aqui chegara por circunstâncias insólitas, reconheceu seu nome encabeçando a coluna. Constatou então haver esquecido de renovar seu visto de permanência problema que, sem dúvida, deve ter conseguido resolver de alguma maneira criativa... para sorte da posteridade.
Nascido na Hungria em 18 de julho de 1915, porém crescido e educado na Suíça, ao chegar à idade adulta Rudolf considerava inaceitável ter de cumprir o serviço militar obrigatório nesse país, calvário do qual conseguiu escapar graças a uma dispensa médica por problemas de articulação numa perna. Nos anos seguintes, porém, teve de apresentar-se regularmente para exames e renovar a isenção. Mas eis que certo dia, em plena estação de esqui esporte que muito apreciava e praticava deparou com o militar que o dispensara da farda... e que o intimou a apresentar-se imediatamente no quartel. Sem perda de tempo, nosso jovem decidiu partir para o primeiro país que lhe facilitasse o ingresso sem muitas delongas consulares. Em poucos dias, para espanto de sua família, embarcava num navio para o Brasil país longínquo e desconhecido, ao qual levava como bagagem seu recente doutorado em Direito. Corria o ano de 1939, e no percurso até o porto de embarque na Itália ele ainda teve a surpresa de assistir, em meio a uma multidão, Mussolini declarar sua adesão à Segunda Guerra, em solidariedade a Hitler e contra os países aliados.
Já no navio, um companheiro de viagem ofereceu-lhe como empréstimo, para leitura, um livro estranhamente intitulado Wie erlangt man Erkenntnisse der höheren Welten (Como se adquirem conhecimentos dos mundos superiores), de um certo Rudolf Steiner. Nosso viajante homônimo achou o texto difícil e um pouco enfadonho, deixando-o de lado. Eis, porém, que algum tempo após chegar ao destino, São Paulo, ele é convidado, por outra pessoa, a participar de um grupo de leitura e discussão em língua alemã, onde descobre que ali se lê nada mais, nada menos do que... Rudolf Steiner.
Desde então se passaram quase sessenta anos, em cujo decorrer Rudolf Lanz se tornou, em nosso país, um grande divulgador da Antroposofia, ciência espiritual elaborada por Steiner no primeiro quarto do século e hoje difundida em todos os continentes. Entusiasmado com a pedagogia Waldorf, de orientação antroposófica, Lanz fundou em 1956, juntamente com sua esposa Marianne e outros poucos casais, a Escola Higienópolis hoje Escola Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo, com quase novecentos alunos abrangendo da pré-escola ao segundo grau. Desse centro pedagógico emanaram irradiações para outras instituições escolares em todo o Brasil, principalmente graças ao centro de formação de professores Waldorf que aí funciona por iniciativa original do casal Lanz.
O cerne da Antroposofia, enquanto cosmovisão, também encontrou em Rudolf Lanz um inesgotável centro irradiador: reunindo pessoas por mais de trinta anos no ramo de estudos antroposóficos em sua própria residência, proferindo palestras sobre diversos temas antroposóficos onde quer que fosse requisitado, ministrando regularmente cursos de introdução à Antroposofia, escrevendo livros sobre vários assuntos a ela pertinentes e, principalmente, traduzindo de modo incansável, para o português, a vasta obra de Rudolf Steiner, foi ele um verdadeiro semeador da ciência espiritual em nosso meio.
Co-fundador da Editora Antroposófica, existente desde 1981, Rudolf Lanz deixa com seu falecimento, ocorrido em julho do presente ano, uma lacuna em nosso Conselho Editorial, do qual participou por dezessete anos com grande empenho e disposição. Seu desprendimento legou à instituição, bem como a seus leitores atuais e futuros, dezenas de traduções a serem editadas, além daquelas que já vieram a público e dos livros de sua própria autoria. Com uma personalidade marcante, sua presença no Conselho sempre provocou posicionamentos definidos quanto às questões em pauta, porém com total consideração e ponderação no tocante à opinião geral. Visando, desde o início, energicamente à divulgação dos textos antroposóficos, sua participação assídua se deu muitas vezes à custa de grande esforço, quando ocorria de a saúde estar ocasionalmente frágil. Até mesmo hospitalizado, ele sentia-se comprometido com seu afã de disseminar conhecimento. É impossível esquecer, por exemplo, quando de sua última hospitalização cirúrgico-cardiológica, seu telefonema fortuito ou seja, à revelia dos médicos pedindo que enviássemos com urgência alguns exemplares de certo livro de sua autoria, para presenteá-los à equipe hospitalar...
Possuidor de ampla cultura humanística, fruto não só de seus estudos acadêmicos, mas principalmente de um profundo interesse pelas realizações culturais em inúmeras áreas, Rudolf Lanz foi também um grande admirador das artes, tendo principalmente a música constituído parte integrante de sua vida social e familiar. No âmbito pedagógico a que se ligou, tal característica se fez sentir de modo marcante, influenciando e incentivando o desenvolvimento artístico no contexto escolar Waldorf. Não poucas vezes, em aulas de História da Arte ou em contexto mais informal, pôde-se contar com seu desempenho musical ao piano, até avançada idade.
Sem dúvida alguma, todas as pessoas que de alguma maneira conviveram com a personalidade arrojada e ao mesmo tempo desprendida de Rudolf Lanz terão ricas impressões a recordar e relatar. Por ora, de tão recente perda fica-nos principalmente a lembrança da coragem, da busca, do empenho incansável pelo objetivo escolhido. Um pouco como em Parsifal, o personagem lendário que tanto o inspirou em suas jornadas pedagógicas e culturais.