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3. ECONOMIA ASSOCIATIVA - 1a parte

Dieter Brüll

Tradução de Marco Berthalot
(fornecido pela Associação Elo em 7/6/98)

Prefácio

A perspicácia e a precisão com as quais o autor analisa os principais fenômenos da economia garantem a atualidade do presente texto, apesar de escrito na década de 1970. O leitor terá que levar em conta esse fato quanto aos fenômenos, pois a realidade econômica naquela época era outra. Citemos, a título de exemplo, a queda do muro de Berlim como símbolo de transformações que ocorreram de lá para cá. Mas do ponto de vista da interpretação dos fenômenos e da direção do desenvolvimento econômico e social que tivemos desde então, o leitor poderá notar a força e a propriedade das análises. Fenômenos mais recentes como as mega-fusões de empresas apenas reforçam a linha de pensamentos que Dieter Brüll, jurista, cientista social e professor universitário em Haia, Holanda, trilhava há mais de 20 anos. O mesmo pode ser dito quanto às Associações Econômicas que, na seqüência destas análises, aparecem como uma direção desejável para o desenvolvimento de uma economia que pretende ser mais ecológica e mais justa do que, até aqui, conseguimos realizar. (M.B.)


“O egoísmo saudável dos participantes do processo econômico garante que se produza exatamente aquilo que o consumidor exige. Os preços dos produtos tendem por si próprios para um mínimo, pois o livre jogo das forças econômicas - neste caso especialmente a concorrência entre empresas - se incumbe de fazer com que os preços do mercado aproximem-se cada vez mais dos custos de produção.”

Isto é o que afirma a ideologia da nossa estrutura social pseudo-capitalista. Mas basta olharmos ao nosso redor para encontrarmos uma realidade completamente diferente. Do lado da produção, vemos uma crescente concentração (cartéis e fusões) que facilita a definição unilateral dos preços (determinação monopolista dos preços) e do pacote de mercadorias que é colocado à disposição do consumidor.

Pergunte-se, numa loja, onde estão aquelas meias que duravam tanto! Pergunte-se onde estão os relógios de bolso que o vovô usava, que duravam três gerações e que continuariam funcionando se o relojoeiro estivesse disposto a fazer o que diz que faz! Procure-se aquela calça que não ficava nem muito baixa na cintura nem muito apertada nas pernas! Todos conhecemos tais situações com aquela resposta estereotipada: “Ninguém compra mais esses produtos, por isso não são mais produzidos.” Mas será que podemos acreditar que o consumidor decidiu que não quer mais as meias duráveis, que não está mais preocupado com a calça confortável ou com um bom relógio ? A partir desse seu egoísmo saudável, o produtor nos entope com mercadorias que rapidamente se desgastam. O comprador de produtos descartáveis é aquele que mais rapidamente volta à loja. Esse fenômeno é bem conhecido. As diferenças de opinião só existem quanto à sua causa. Será que a estrutura econômica está enferma, ou será que o sistema em si é saudável, necessitando apenas de algumas correções (economia social de mercado)?

Concentração dos Produtores

Já temos mais de um século de experiências com fenômenos de concentração e também com o combate a essas concentrações. O país do “free-enterprise” já conhece a lei anti-truste desde 1890. Mas onde é que encontramos “the biggest companies of the world” (as maiores companhias do mundo)? Na Comunidade Econômica Européia consegue-se desfazer um cartel, mas ao mesmo tempo surgem outros dez em seu lugar. Esses fenômenos não são meros desvios esporádicos, como nos querem fazer acreditar os políticos comprometidos com o capital. Todo professor sabe que Joãozinho pode atrasar-se uma, duas ou até três vezes. Mais do que isso, significa que o problema está com Joãozinho e não nas coincidências que parecem justificar os atrasos. Da mesma forma podemos entender a tendência à concentração, à formação de posições de poder econômico e de monopólios, que são inerentes ao sistema econômico atual. Toda tentativa para manter esse sistema e, ao mesmo tempo, evitar as concentrações, está fadada ao fracasso. Uma estrutura econômica que adota o princípio do egoísmo como seu ponto de partida, terá que aceitar que os produtores se reúnam para fazê-lo valer. E seria um erro atribuirmos a tendência à concentração a uma conspiração dos produtores. Que assim fosse! O aspecto fatal da estrutura econômica atual é justamente o fato de que o consumidor depende totalmente da atividade dos produtores e que estes fracassariam na luta pela sobrevivência se não o explorassem. A única distinção que podemos fazer, neste caso, é diferenciar os produtores que participam desse jogo com entusiasmo daqueles que o fazem a contragosto. A boa vontade do empresário encontra limites estreitos. O atendimento ao consumidor, as garantias e demais serviços, são meras manifestações periféricas. E a que devemos isso?

O problema é multifacetado e demasiadamente complicado para ser tratado em apenas um artigo, mas devemos abordar os aspectos principais para podermos esclarecer o que queremos dizer com o termo associações. Em primeiro lugar, podemos chamar a atenção para a natureza do ser humano que, em geral, procura colocar os interesses próprios acima dos demais. Por outro lado, esse fato não precisa levar à catástrofe se a sociedade, com as suas instituições, conseguir colocar limites a esse egocentrismo . Mas o berço da revolução industrial nos legou a fábula de que uma “mão invisível” (do economista Adam Smith) faria com que o egocentrismo individual conduzisse ao maior bem estar de todos. As seguintes palavras de Franz Josef Strauss (um político alemão), proferidas ao estílo dos antigos oráculos, representam um eco macabro e atrasado desse fato: “Pessoas como Flik e Kint (que em poucos dias ‘faturaram’ milhões) são o preço que pagamos para estarmos passando bem”. A partir dessa filosofia, parece não existir motivo para se introduzir, nesse sistema, algum tipo de medida que contenha o comportamento anti-social.

Sabemos que a natureza do ser humano tende a uma instigação emocional crescente e auto-alimentada, quando pessoas se agrupam em função de interesses comuns. Não é preciso estudar psicologia de massas para entendermos o extremismo de determinados clubes políticos ou de reuniões de representantes da classe média ou, ainda, de trabalhadores em greve. Esse tipo de fenômeno é favorecido pela estrutura econômica que criamos; ela põe todos num mesmo saco.

Os sindicatos patronais impostos na Holanda durante a ocupação alemã, por exemplo, foram desfeitos logo após a libertação, mas logo depois foram reintroduzidos com metas e nomes aparentemente diferentes. Na maioria dos países industrializados, deve ter ocorrido algo semelhante. Nem uma criança acreditaria que esta forma de organização cria um parceiro menos complicado para o diálogo com o estado. Essa mesma frente unificada e fechada, também é apresentada, para o diálogo, aos sindicatos dos trabalhadores e aos consumidores. Desta forma fortaleceram-se apenas as forças egocêntricas. Os participantes dessas organizações também não as estranham e, a cada passo, encontram bons e justos motivos para a sua existência. É que também não existe ninguém nessas reuniões que traga um argumento contrário. E assim acrescenta-se, ao egocentrismo, também o poder. A partir dessas considerações resulta o primeiro princípio que, na idéia da sociedade trimembrada, é considerado básico para a economia: “Não se baseiem na ilusão de que o ser humano é um ser altruísta. Aceitem que, do ponto de vista econômico, as suas ações estão permeadas por interesses próprios.” Justamente por isso é necessário que se reúnam para a cooperação e para o trabalho em conjunto, não as pessoas com os mesmos interesses, mas sim aquelas que representam interesses opostos. Quando interesses opostos aparecem em sua interdependência do ponto de vista estrutural, possibilita-se o surgimento de uma compensação mútua; e aí sim, podemos esperar um equilíbrio aceitável para a sociedade como um todo e não apenas para aqueles diretamente interessados.

Quem decide o que se produz ?

O segundo aspecto da nossa estrutura econômica atual é que o empresário decide, de maneira autônoma e unilateral, o que será produzido. Isso certamente não ocorre sem informações sobre os processos técnicos, sobre os custos de produção, sobre as mercadorias dos concorrentes, sobre as possibilidades de financiamento e, cada vez mais, também sobre a demanda efetiva do mercado. “O que é que eu posso vender, a que preço, com que meios e em que prazo?” Com tudo isso passa-se a impressão de que assim está garantido o ajuste entre a produção e as necessidades dos consumidores. Os defensores da ordem econômica atual insistiram sempre sobre o fato de que só é possível produzir se existe demanda. Mas como se explica que, cada vez mais, se instala no consumidore a sensação de que ele não pode comprar o que de fato quer?

Muitas linhas de produção foram montadas porque, sem dúvida, existia a necessidade correspondente: um empresário farejou alguma forma de ganho. Mas com isso dá-se início a um processo que segue as suas próprias leis. É bem possível que o volume e o ritmo da demanda, por exemplo, não tenham sido avaliados corretamente. E a causa desse erro pode ser encontrada tanto no empresário, que pode errar nas suas avaliações, como também nos desejos imprevisíveis do consumidor. Mas o fato é que o empresário, nestes casos, não estará disposto a arcar com o prejuízo daí resultante; ele buscará todos os meios para estimular o consumo e aumentar o faturamento.

Essa forma de “produzir sem demanda” ainda é uma manifestação bastante inofensiva do fenômeno. Mas isto muda completamente quando o fenômeno se torna parte do sistema. Sabemos que a produção das empresas tende ao excesso: a produtividade das máquinas é praticamente ilimitada e com o aumento da produção ocorre uma diminuição dos custos. É a famosa “lei das economias de escala”.

O aumento da produção recebe um empurrão adicional quando se adquirem máquinas destinadas a executar trabalhos que não aproveitam toda a sua capacidade produtiva. A tendência será inventar novos produtos que possam ser fabricados com tais máquinas.

Algo semelhante ocorre quando o processo de produção gera subprodutos. “De que forma podemos aproveitar estes restos para levá-los ao mercado?” Um bom exemplo nos é dado pela propaganda intensiva que a indústria de alumínio faz, dizendo que deveríamos acrescentar flúor à água. O flúor é um subproduto bastante tóxico da produção de alumínio, e a sua eliminação gera altíssimos custos. “Como é bom poder transformar esses custos em lucro, convencendo os governos a adicionarem flúor na água potável, mostrando-lhes que sem essa adição eles estariam deixando de cumprir a sua responsabilidade perante os dentes das crianças.” A questão de como vender bens sem a existência prévia da respectiva demanda, tem um lado técnico que está presente quando mercadorias são produzidas com vida útil propositalmente limitada, obrigando o consumidor a voltar mais freqüentemente à loja. Mas também há o lado da psicologia aplicada, através da qual se faz o consumidor comprar o que na verdade ele não quer. Este princípio pode ter sido descoberto quando a capacidade produtiva das máquinas ainda era mal aproveitada, mas agora também pode ser adotado de forma independente. O significado de seu efeito pode ser avaliado pela redução para um terço do faturamento habitual dos supermercados, em Nova Iorque, durante uma greve dos jornais. Talvez possamos deduzir, daí, que nesse caso as necessidades dos consumidores têm um componente não autônomo de aproximadamente dois terços, ou seja, dependem dos estímulos artificiais dos anúncios diários.

Com a questão dos supermercados, passamos do produtor para o comerciante. Em nossa estrutura atual, o comerciante é uma extensão do braço do produtor. Através das mais diversas formas ele é estimulado a vender aqueles produtos que lhe oferecem maior lucro. Mas essa forma de empurrar as vendas também é estimulada a partir de um outro lado: a forma de financiamento. Para conseguir créditos, o empresário não tem que comprovar a existência de uma demanda concreta; basta ser convincente a respeito da possibilidade de estimular a demanda. É como diz o eufemismo científico: existe uma “demanda em potencial”.

Mas o empresário também quer libertar-se mesmo desse controle mínimo, acumulando um patrimônio próprio a partir do acúmulo dos lucros. Esse patrimônio adquire vida própria. Ele exige rentabilidade e quer ser aplicado em novos investimentos, tanto na própria empresa como em pesquisa industrial ou na compra de outras empresas. Uma grande parte da depreciação das empresas não é destinada mais a pagar dívidas, mas apenas para a ampliação do patrimônio. Esse fato representa mais um estímulo para a realização de investimentos, que podem ocorrer sem nenhuma relação com a demanda. A imagem que se forma a partir destas análises é a de um aparelho de produção poderoso que, através de vários canais, bombeia as mercadorias para cima do consumidor. É justificado até perguntarmos se o consumidor não assume a responsabilidade por essa situação, ao absorver esse fluxo de mercadorias. De certa maneira temos que aceitar uma resposta afirmativa. Uma greve dos consumidores traria à luz quais as necessidades que, de fato, estão sendo satisfeitas.

Mas será que podemos aceitar essa exigência de uma postura tão consciente do consumidor quando vemos que, ao mesmo tempo, o induzimos a desenvolver dependências anímicas e, freqüentemente, até físicas, através da utilização de meios científicos refinados? Além disso, a mídia de massa depende financeiramente da propaganda industrial. E isto obviamente impede que se debatam abertamente esses métodos tão disseminados em nosso sistema econômico!


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