Resenha do capítulo "Rudolf Steiner" do livro de Fritz März "Grandes Educadores"

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Criado em Sábado, 31 Maio 2008 Escrito por Valdemar W. Setzer

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última versão: 2/6/09

1. Introdução

Este artigo analisa o capítulo "Rudolf Steiner" do livro de Fritz März, Grandes Educadores: Perfis de grandes educadores e pensadores pedagógicos, trad. E.A. Royer, São Paulo: EPU, 1987, pp. 131-135. Foram pinçados alguns trechos que me pareceram exigir comentários. Como não tenho ainda autorização da editora, deixo de colocar na Internet a transcrição completa do capítulo; no entanto, posso enviá-lo por e-mail a quem o solicitar.

Esta é a segunda resenha que faço sobre um capítulo de um livro sobre grandes educadores. A outra foi sobre o capítulo "Rudolf Steiner 1961-1925" escrito por Jürgen Oelkers no livro de Joy A. Palmer 50 Grandes Educadores: de Confúcio a Dewey, trad. M. Pinsky, São Paulo: Ed. Contexto, 2005 (pp. 229-235). É interessante comparar os dois capítulos e as duas resenhas: na primeira, tive que esclarecer muito mais pontos, em tal medida que ela se tornou uma introdução não só à Pedagogia Waldorf, mas também a vários pontos importantes da cosmovisão de Rudolf Steiner. Em certos aspectos, os dois trabalhos se complementam.

2. Comentários

2.1 "A preocupação da época atual deve ser a de basear a escola inteiramente numa vida espiritual livre." (p. 131.)

Com essa citação (provavelmente de Steiner), März abre o capítulo. Ela requer alguma explicação. Em 1919, ano da fundação da primeira Escola Waldorf, que implementou a pedagogia de Steiner, ele tentou introduzir uma renovação na estrutura social, pois tinha esperança de que a 1ª Guerra Mundial tinha mostrado amplamente a necessidade de profundas mudanças na organização dos Estados, na economia e nas instituições culturais. Steiner dividiu a sociedade em três grandes áreas, que ele denominou de "Vida Econômica" (Wirtschaftsleben), "Vida Jurídica" (Rechtsleben) e "Vida Espiritual" (Geistesleben). Essencialmente, elas têm a ver, respectivamente, com a satisfação de necessidades, o relacionamento entre as pessoas e instituições, e a prestação de serviços ou exercício de habilidades. Essas três atividades referem-se não só ao mundo físico ou natural, mas também à vida dos sentimentos, da cultura e do aperfeiçoamento individual. Por exemplo, claramente existem necessidades físicas, como vestuário, alimentação, habitação, transporte, higiene e saúde, mas também existem necessidades não-físicas, como a educação das crianças e jovens, a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento pessoal (pela auto-educação), espaço para o exercício da criatividade, etc. Assim, uma escola existe para satisfazer necessidades de crianças e jovens e, portanto, deveria ser considerada como parte da Vida Econômica. Obviamente, os critérios de avaliação de uma instituição educacional devem ser totalmente diferentes de uma instituição de produção de bens. Quando funcionários e professores de uma escola encaram os alunos dela, deveriam sempre ter em mente que estão satisfazendo a necessidade que eles e os seus pais têm de que recebam uma educação e desenvolvam-se como indivíduos. Por outro lado, o professor de uma classe é um representante da Vida Espiritual, na medida em que ele exerce suas habilidades, e presta o serviço de educar seus alunos.

As características básicas que Steiner associou com cada área foram: para a Vida Econômica, a fraternidade (ou solidariedade); para a Vida Jurídica, a igualdade; para a Vida Espiritual, a liberdade. De fato, se não houver solidariedade na satisfação das necessidades, alguns terão um excesso, e outros falta em relação ao que precisam (note-se que as necessidades variam de indivíduo para indivíduo). Na Vida Jurídica, que engloba as leis, os contratos, acordos e regras de convivência entre pessoas, deve haver igualdade, isto é, neles e em sua aplicação uma pessoa não pode ser privilegiada em relação a outra. Na Vida Espiritual, o exercício de habilidades exige liberdade para que seja frutífero. Por exemplo, um professor tem que ter liberdade de apresentar um determinado tema do currículo de um modo para uma classe, e de outro para outra; ele tem que ter liberdade para improvisar aquilo que é mais adequado para cada momento de suas aulas – nesse sentido, ele deve ser em primeiro lugar um artista da educação, e não um técnico. Mas há ainda um outro aspecto: não deve haver interferência de instituições ou organismos de uma área sobre a outra, isto é, deve haver independência de cada área. Assim, o Estado ou o setor de produção de bens não deveria de modo algum interferir na educação. Note-se que, aqui no Brasil e em vários países, o ensino denominado "público" é na verdade um ensino estatal; o Estado determina os currículos, os livros-texto, escolhe e nomeia professores, etc. É por isso que as escolas Waldorf em vários países europeus têm o nome de "Escola Waldorf Livre". Além de cada escola ser independente, os seus professores têm liberdade total de estabelecer currículos, organizar a escola, promover atividades, etc. É sob esses prismas que, penso, aquelas palavras de Steiner devem ser entendidas.

2.2 "As reações às suas idéias e impulsos foram bastante contraditórias. Enquanto seus adeptos o veneravam como fundador de uma religião e citavam suas publicações como se fossem Escritura Sagrada, seus adversários e críticos acusavam-no de magia e ocultismo, de idéias vagas e nebulosas. Segundo estes, sua "antroposofia" não apresenta nenhuma originalidade, é uma mistura de filosofemas orientais e helenísticos, de idéias clássicas e românticas, na verdade um renascimento de motivos gnósticos; suas propostas pedagógicas teriam sido tomadas de empréstimo das idéias dos grandes pedagogos reformadores da sua época." (p. 131.)

Esse início do primeiro parágrafo do capítulo contém imprecisões ditas pelo autor e pelas vagas pessoas que ele cita.

Os seguidores de Steiner jamais poderiam tê-lo venerado como "fundador de uma religião" pois a sua Antroposofia não é religião: não tem cultos, não tem sacerdotes, não tem dogmas, não tem uma organização hierárquica como é típico de muitas religiões. De fato, por solicitação de pastores da Alemanha, Steiner deu as bases de uma renovação da religião, a "Comunidade de Cristãos", que se qualifica como "Movimento de Renovação Cristã". Dessas bases foi fundada por eles essa religião, que continua existindo até hoje (há uma lindíssima igreja em São Paulo, na Av. Ver. José Diniz). Ela fundamenta-se na Antroposofia, mas relativamente poucos daqueles que se dizem "antropósofos" são membros da Comunidade de Cristãos. Steiner relutou a atender o pedido daqueles pastores, que desejavam uma total renovação do cristianismo praticado pelas igrejas ditas cristãs da época. Ele dizia que não havia mais lugar para crenças; o ser humano moderno requer uma atitude científica, de formulação de hipóteses e teorias, bem como observações conscientes, comprovações experimentais e aplicações práticas das mesmas. Em geral, as religiões dirigem-se aos sentimentos, e não à compreensão, como é o caso da Antroposofia. No entanto, Steiner reconheceu que havia pessoas que ainda precisavam de um impulso religioso, e acabou cedendo à insistência dos que lhe pediam aquelas bases.

Assim, classificar genericamente a Antroposofia como religião é um erro de quem não a conhece. Por outro lado, jamais os seguidores de Steiner deveriam considerar suas publicações (28 livros e quase 300 volumes com cerca de 6.000 palestras – não há nada dele que não esteja publicado, entre livros e palestras) como "Escrituras Sagradas". Repetidamente ele afirmou que jamais se deveriam tomar suas palavras como verdade absoluta e definitiva; a atitude correta propugnada por ele era tomarem-se suas comunicações e idéias como hipóteses de trabalho, a serem verificadas, tanto em termos de coerência como de aderência ao que pode ser constatado no exterior e no interior de cada um. Além disso, ele deu o caminho (constituído de exercícios meditativos, feitos individualmente) para que cada um desenvolva os órgãos de clarividência que claramente ele possuía; por meio desse desenvolvimento, cada pessoa deveria comprovar pelo menos algo de suas palavras, e com isso admitir com confiança, por experiência própria, que elas são verdadeiras. Em geral, seus seguidores e continuadores não têm dificuldades em admitir tudo o que ele disse como hipóteses razoáveis, pois a coerência e a abrangência de suas idéias é excepcional. Elas alargam enormemente a visão de mundo proporcionada pela ciência moderna, e ajudam a compreender o passado da humanidade, por exemplo com magníficas interpretações absolutamente originais de mitos, escritos antigos e a Bíblia. Isso faz com que essas escrituras e lendas passem a ser compreendidas e deixem de ser meras "historinhas" inventadas por nossos antepassados, pretensamente supersticiosos e cheios de crendices, como uma visão materialista necessariamente tem que admitir.

"Magia" é a última coisa que se pode encontrar em Steiner. Dizer que ele a praticava é ignorar totalmente sua maneira de adquirir conhecimentos e suas atividades. Já "ocultismo" encaixa-se bem em sua atividade, desde que se entenda corretamente essa palavra. Um de seus livros básicos teve o título de Geheimwissenschaft, que foi traduzido por A Ciência Oculta (São Paulo: Ed. Antroposófica, 1998), mas que eu traduziria preferivelmente como "A Ciência do Oculto" (disponível na Internet em inglês). Nele, Steiner inicia dizendo como entende a expressão: não se trata de uma ciência sobre algo secreto, mas sobre aquilo que não pode ser observado diretamente pelos nossos sentidos. De fato, nesse sentido, os sentimentos e os pensamentos do leitor destas linhas são exemplos de que há atividades ocultas: ele os "observa" interiormente, mas não pode mostrá-los para outrem. Nas palavras de Steiner no livro citado, "Não se trata aqui de um saber que em qualquer sentido se possa considerar ‘secreto’, acessível apenas a alguns por circunstâncias especiais do destino. Faremos jus ao uso aqui proposto da expressão se considerarmos o que Goethe tem em mente ao referir-se aos ‘mistérios manifestos’ nos fenômenos do Universo. O que permanece ‘oculto’, não manifesto nesses fenômenos, ao serem eles compreendidos apenas pelos sentidos e pelo intelecto a estes ligado, é considerado como o conteúdo de uma forma supra-sensível de conhecimento. Para quem considera ‘ciência’ apenas o que se revela por meio dos sentidos e do intelecto a serviço destes, naturalmente o que se subentende aqui como ‘Ciência Oculta’ não é ciência alguma. Contudo, se quisesse compreender a si própria, tal pessoa deveria reconhecer estar recusando uma ‘Ciência Oculta’ não por um discernimento fundamentado, mas por um julgamento arbitrário oriundo de uma sensibilidade puramente pessoal." (p. 32). Steiner chamou o seu método de investigar o "oculto" de ciência pois é baseado numa atitude científica (para uma caracterização desse termo, veja-se meu artigo "Ciência, religião e espiritualidade"), por exemplo admitindo hipóteses de trabalho e não crenças ou fé.

A originalidade de Steiner é tão enorme, que a afirmação contrária pelas pessoas referidas pelo autor soam como opinião sem fundamento no conhecimento de sua obra – e o autor devia ter colocado essa questão em seu devido lugar. Há na Antroposofia filosofemas, isto é, proposições filosóficas. No entanto, ela deveria mais propriamente ser denominada de cosmovisão, ou de visão de mundo (Weltanschauung). Já em termos da filosofia Steiner é original: em seu livro Rätsel der Philosophie ("Enigmas da Filosofia", ainda não traduzido), em que ele analisa as idéias de muitos filósofos antigos e modernos (até sua época), ele as coloca em termos da manifestação cada vez mais intensa do "Eu superior" ao longo da história. Em lugar de emprestar as idéias dos filósofos, ele as examina sob um prisma totalmente original. Por outro lado, obviamente muito filósofos analisaram corretamente a humanidade, portanto suas idéias permanecem até hoje e, quando se as admite como válidas e se as cita ou usa, não de deveria dizer que elas são "tomadas de empréstimo".

Quanto às propostas pedagógicas de Steiner, sua Pedagogia Waldorf foi absolutamente revolucionária e original, desde a proposta de classes mistas (não comuns para a época), até o fato de não haver notas ou repetições de ano, passando pela figura do Professor de Classe, que acompanha uma dada turma da 1ª à 8ª série, e ainda o ensino em "épocas", períodos em que apenas uma matéria é ministrada durante 3 ou 4 semanas diariamente. Mas, em minha opinião, a originalidade mais marcante da Pedagogia Waldorf é o fato de todo o ensino ser baseado em uma visão holística do desenvolvimento do ser humano, como um ser volitivo, emotivo e intelectual, reflexo de uma visão espiritualista conceituando claramente o que vem a ser o corpo, a alma e o espírito humanos e sua progressiva manifestação no decorrer do desenvolvimento da criança e do jovem, em períodos bem marcados.

Não adianta ficar dizendo que Steiner emprestou isso ou aquilo; é óbvio que o que é verdade permanece de um autor para outro. É preciso apontar especificamente o que ele teria "tomado de empréstimo" e de quem. Essa deveria ser a atitude acadêmica adequada.

2.3 No segundo parágrafo (p. 132), o autor traça uma breve biografia de Steiner, à qual não tenho maiores reparos. A sua frase "Doutorou-se com um estudo sobre a filosofia da liberdade" exige uma observação. A sua tese de doutorado, defendida na universidade de Rostock em 1891, publicada com o título de Verdade e Ciência (trad. R.Lanz, São Paulo: Ed. Antroposófica, 1985), versou sobre a cognição; baseada nela ele escreveu o livro Die Philosophie der Freiheit, traduzido como A Filosofia da Liberdade (trad. M. Greuel, São Paulo: Ed. Antroposófica, 2000) disponível na íntegra em inglês e espanhol na Internet. De fato, sua análise da liberdade e o que seria uma ação moral baseada na liberdade é o pináculo do livro, mas sua maior parte versa sobre o pensar e cognição.

2.4 "Segundo Steiner, a vida do Estado, da economia e do espírito deve existir como campos autônomos. Especialmente o ensino deve ser libertado da dependência do Estado e da economia e basear-se "numa vida espiritual livre" (somente uma "escola livre colocará, na vida, homens aptos a sua plena capacidade no Estado e na economia, porque esta é desenvolvida neles"). Destes dois impulsos, Steiner espera uma solução para a questão social, uma reforma da sociedade e de todos os campos da vida; da ciência e da arte, da economia e da vida social e, não em último lugar, da educação." (p. 132.)

Sobre as primeiras frases desse trecho do 3º parágrafo já discorri no item 2.2. A tradução seria mais correta se tivesse empregado "as vidas" e "devem existir". Note-se que a expressão "escola livre" deve ser entendida como independente de ingerências externas. De fato, todas as escolas Waldorf são independentes. Elas se agregam em federações nacionais, como a Federação das Escolas Waldorf no Brasil (FEWB), e uma internacional, Bund der freien Waldorfschulen ("União das Escolas Waldorf Livres"), mas essas federações não têm ingerência sobre cada escola. A FEWB, por exemplo, simplesmente certifica escolas como seguindo o método e os princípios da Pedagogia Waldorf e organiza cursos e congressos para os professores.

A Pedagogia Waldorf propõe-se a "colocar, na vida" seres humanos aptos a exercerem suas capacidades em todos os aspectos, e não só "no Estado e na economia" (esta última aqui entendida no sentido comum, e não no da Vida Econômica como expus em 2.2). Já os tais "dois impulsos" referidos escapam a meu intelecto. Se foram, as Vidas Econômica e Espiritual na acepção de Steiner, elas são âmbitos da sociedade, e não impulsos. E não são deles que Steiner esperava uma reforma da sociedade, e sim de cada indivíduo, das comunidades e da sociedade como um todo. Quanto às crianças e jovens, ele deu a máxima importância possível à educação, pois esta, se mal feita, pode produzir adultos com pensamentos rígidos, insensíveis e sem coragem para agirem. Quanto aos adultos, ele colocava uma importância fundamental na auto-educação.

Em sua A Filosofia da Liberade, já citado em 2.3, Steiner escreveu: "A natureza faz do ser humano um mero ser natural; a sociedade, um ser que age conforme leis; um ser livre somente ele pode fazer de si mesmo. A natureza libera o ser humano em determinado estado de sua evolução; a sociedade o conduz alguns passos adiante; o último aperfeiçoamento somente ele podedar a si mesmo." [p. 119, ênfases do autor.] A escola Waldorf tem como meta justamente preparar os alunos para viverem plenamente em sociedade, e prepará-los para continuar seus estudos e darem o passo do auto-desenvolvimento no caminho para a liberdade. Não é fácil criar a potencialidade para a liberdade no mudo atual, onde a massificação, os meios eletrônicos e a ação movida por prazeres superficiais e muitas vezes artificiais, estão cada vez mais impedindo o ser humano de atuar livremente.

2.5 Ainda no 3º parágrafo, "Em 1919, um ano após o fim da Primeira Guerra Mundial, abriu uma escola modelada segundo suas idéias antroposóficas e de reforma social, para filhos dos operários da fábrica de cigarros Waldorf-Astoria, em Stuttgart." (p. 132.)

É preciso deixar claro que a fundação da primeira escola Waldorf se deu por iniciativa dos funcionários daquela fábrica. Eles tinham dificuldade de acompanhar as idéias de Steiner sobre reforma social, e quando este lhes disse que isso era um problema educacional, afirmaram que então queriam para seus filhos uma educação diferente. Emil Molt, o diretor da fábrica, abraçou com entusiasmo a idéia e chamou Steiner para formar a escola para os filhos dos funcionários. Steiner exigiu total liberdade para isso, a escola foi formada e algum tempo depois desligou-se totalmente da fábrica.

2.6 O início do 4º parágrafo é o seguinte. "Não há dúvida, o educador formado de acordo com os princípios da antropologia pedagógica moderna sente-se de certo modo perplexo diante do corpo humano ‘quadripartido’ da teoria de Steiner. Não terá problemas quanto ao ‘corpo físico’. Mas o que há de entender por ‘corpo vital ou etéreo’, por ‘corpo da sensibilidade ou astral’ e, finalmente, por ‘corpo-eu’? Isso sem falar das dificuldades em que incorre na reflexão sobre a ‘reencarnação’, a lei da reincorporação, da vida terrena repetida". (pp. 132-3.)

De fato, uma das caracterizações dadas por Steiner do ser humano (e não do "corpo humano"), é uma organização que é traduzida como "quadrimembrada", correspondendo literalmente ao original "viergliederig". "Partes" têm uma conotação de "partes estanques", ao passo que membros ("Glieder") sempre interagem uns com outros, formando um todo, como por exemplo nossos próprios membros, que têm características próprias mas interagem e dependem dos outros; os membros de uma comunidade social ou de trabalho também interagem e formam o todo que é ela própria. Os membros "corpo etérico", "corpo astral", e "Eu" (e não "corpo-eu", expressão jamais usada por Steiner), não são físicos. Brevemente, a eles estão associados os processos vitais e a forma orgânica (também nas plantas e animais), os processos de percepção, dos sentimentos, dos instintos e da consciência (também nos animais) e os processos da individualidade "superior", como o intelecto racional, a auto-consciência, a liberdade e o amor altruísta (inexistentes nos animais), respectivamente. Para maiores detalhes, veja-se meu texto "Uma introdução antroposófica à constituição humana". Acontece que os três citados membros superiores, não sendo físicos, escapam totalmente a uma compreensão baseada em uma visão de mundo materialista, daí o autor mostrar perplexidade quanto a eles – fora o fato de aparentemente não ter estudado as extensas descrições e caracterizações que Steiner deu sobre eles, em livros e palestras. Uma conceituação adequada desses três membros superiores é fundamental para o professor Waldorf, pois durante o processo educativo eles vão gradativamente manifestando-se cada vez mais, e adquirindo individualidade. Em grande parte, o currículo Waldorf, isto é, o que se ensina em cada idade, e como (de maneiras gerais, pois receitas rígidas não devem ser seguidas, já que cada aluno e cada classe têm individualidades e características diferentes), baseia-se na conceituação desses membros superiores, seu desenvolvimento e manifestação cada vez mais crescente com o amadurecimento da criança e do jovem.

Quanto à reencarnação, é absolutamente fundamental considerar-se que o conceito que Steiner deu a ela é absolutamente original, apesar de obviamente conter elementos comuns a várias tradições espiritualistas que a preservaram. Esse conceito apresenta uma grande dificuldade para muitas pessoas pois, por uma necessidade da humanidade, por bastante tempo ele desapareceu quase que totalmente. Era necessário que a humanidade, provindo dos mundos espirituais, caísse na matéria, onde pode cometer erros, para que o ser humano pudesse adquirir a liberdade e a individualidade. Note-se como na Antiguidade a consciência grupal suplantava a individual, o que ainda ocorre nos povos primitivos; o ser humano sentia-se guiado, portanto sem livre-arbítrio. A reencarnação só tem sentido de um ponto de vista espiritualista, pois do materialista tudo termina para um ser humano com sua morte, já que só existe nele a sua parte física. Portanto, realmente um materialista não consegue fazer uma "reflexão" sobre a reencarnação – principalmente por que provavelmente tem preconceito a respeito de qualquer noção espiritualista do ser humano e do universo, e recusa-se a estudar e refletir sobre o que poderia ser a reencarnação e se ela tem sentido e explica algo (como mostrou magistralmente Steiner, inclusive com muitos exemplos). Quero deixar aqui somente um pensamento lógico meu a respeito: se alguém considera que a vida deve ter um sentido, então este deve ser o desenvolvimento de cada indivíduo e, portanto, deve-se ter a chance de compensar, em uma vida subseqüente, os erros cometidos em uma vida. Obviamente, nada disso faz sentido para um materialista coerente, pois da matéria não pode advir sentido para a vida.

Nas escolas Waldorf, o conceito de reencarnação jamais é tratado, pois considera-se que os alunos ainda não têm maturidade suficiente para encararem livre e conscientemente esse assunto. Pode acontecer de alunos do fim do ensino médio formularem perguntas a respeito da reencarnação – aí o professor deve abordar a questão da maneira adequada à maturidade deles, respeitando, na classe, os que não têm interesse pelo assunto. No entanto, o conceito de reencarnação deve estar presente em todos os professores Waldorf, para considerarem que cada aluno é um ser espiritual que ali está para aperfeiçoar-se, merecendo portanto todo o respeito. O mestre deve considerar-se um simples instrumento para o aperfeiçoamento da individualidade de cada aluno, contribuindo para seu desabrochar. No extremo oriente, há em certas regiões uma tradição de o professor inclinar-se frente a seus alunos, pois algum deles pode ter uma individualidade muito mais desenvolvida que a sua; na Pedagogia Waldorf, o importante é o respeito para com cada aluno que, nessa encarnação, colocou-se sob a orientação do mestre e espera que ele lhe proporcione o desenvolvimento adequado para poder, posteriormente, agir como adulto livre, criativo e socialmente atuante.

2.7 A frase seguinte é: "Steiner descreve assim os três primeiros períodos do desenvolvimento humano: o período dos primeiros sete anos começa com o parto do corpo físico e caracteriza-se pelo modelo e a imitação; o segundo período, que inicia com o nascimento do corpo etéreo, é determinado pela autoridade e a obediência, sendo que a criança durante oito anos é conduzida pela mesma personalidade do educador e professor; finalmente, o terceiro período, que principia com a libertação do corpo astral e o amadurecimento sexual, estende-se até aos vinte e um anos. Nele, o jovem alcança a sua autonomia e capacidade de julgamento. Esta interpretação da evolução do desenvolvimento humano dificilmente será aceita sem restrições pela moderna psicologia do desenvolvimento."

De fato, uma das bases da Pedagogia Waldorf é o desenvolvimento da criança e do adolescente em períodos de 7 anos, os "setênios". Como o autor menciona, eles são em parte caracterizados pelo nascimento físico, e por uma metáfora de "nascimento" dos corpos etérico (ao redor de 7 anos), do corpo astral (ao redor dos 14 anos) e do Eu (ao redor dos 21 anos). Esse "nascimento" desses três últimos deve ser entendido como uma independização, análoga à saída do bebê do corpo protetor da mãe. De fato, por exemplo, nos 7 primeiros anos a criança está devotada largamente à formação de sua base física e vital, e tudo o que tem a ver com esse processo, como o desenvolvimento da postura ereta, a coordenação motora, o andar, o falar, o desenvolvimento dos órgãos de percepção sensorial, o pensar, etc., culminando fisicamente com a troca dos dentes. Esforços intelectuais de aprendizado, como aprender a ler e a fazer contas, prejudicam nessa época o desenvolvimento harmônico de todas essas capacidades, de modo que a Pedagogia Waldorf recomenda que aqueles esforços só sejam feitos a partir de 6 ½ a 7 anos de idade, lentamente e de maneira o menos abstrata possível (já que as letras viraram símbolos meramente abstratos).

O princípio da autoridade é uma característica do ensino fundamental das escolas Waldorf, mas ela deve ser entendida corretamente. Não se trata de autoritarismo, e muito menos de forçar uma "obediência". A expressão usada na Pedagogia Waldorf é "autoridade com amor": o professor deve exercer autoridade como um exemplo amoroso de quem pode guiar as crianças em seu desenvolvimento. O respeito dos alunos para com o professor deve surgir de uma admiração por sua sabedoria geral de vida, especialmente na sua capacidade de orientá-los, e pela reciprocidade em relação ao respeito que cada professor deve necessariamente sentir para com cada aluno. É sempre tocante ver como, no começo do dia, o "professor de classe" (que idealmente acompanha cada classe da 1ª à 8ª séries, dando todas as matérias principais), fica na porta da sala de aula e cumprimenta cada aluno que entra, apertando sua mão e olhando para seus olhos; interiormente, ele deveria prestar atenção a cada um, e não estar com seus pensamentos em problemas longínquos. É também interessante salientar que, na falta de notas e reprovações, a autoridade do professor deve ser realmente desenvolvida não pela imposição de medo, mas por um respeito pela sua capacidade de orientar cada aluno em seu amadurecimento e de organizar cada aula adequadamente e de maneira interessante. Realmente, na Pedagogia Waldorf o professor deve ser antes de tudo um artista educacional e social, e não um técnico.

A aceitação ou não desse esquema dos setênios e do desenvolvimento dos membros superiores da individualidade depende exclusivamente de duas coisas: adquirir um conhecimento profundo de seu significado, e verificar os excelentes resultados que isso traz. Por exemplo, nunca houve problemas nas escolas Waldorf com a progressão continuada e a falta de notas – esse tipo de problema só surge quando os professores e pais não são preparados para atuarem sem essas ferramentas de imposição de autoritarismo, de forçarem os alunos a estudarem e trabalharem não por que se interessam por um assunto dado em classe, mas por que são obrigados a isso pois senão tirariam más notas e seriam reprovados. É interessante observar que essa progressão continuada aparentemente foi proposta pela UNESCO baseada no sucesso mundial da Pedagogia Waldorf. Ela não está errada, a sua aplicação é que foi mal feita em nosso país. O que significa um aluninho tirar uma nota baixa em uma prova? Simplesmente que ele não conseguiu responder adequadamente às questões da mesma, da maneira como o professor as corrigiu. Isso não significa que ele não tenha um conhecimento básico adequado da matéria; o mau resultado pode ser conseqüência de distúrbios emocionais momentâneos; pode significar que ele não tem o interesse que o professor devia ter-lhe despertado pela matéria; pode significar que ele, como criança, não teve o autodomínio para estudar para a prova, isto é, que – ainda bem – ainda não se comporta como adulto. A idiotice das provas pode ser comprovada por qualquer um: quantos leitores deste texto, formados em curso superior, conseguiriam ser aprovados agora em um vestibular com grande concorrência? Quantos seriam capazes de passar hoje nas provas que tiveram que fazer durante toda a sua escolarização?

Finalmente, uma visão de mundo materialista, prevalente nos meios acadêmicos e intelectuais da "moderna psicologia", realmente não permitirá a aceitação "sem restrições" da "interpretação" da existência dos três membros superiores de cada individualidade humana e o papel da educação escolar em seu desenvolvimento. A psicologia do desenvolvimento coerente e prática introduzida por Steiner, usada durante toda a fase escolar, desde o jardim-de-infância até o fim do colegial, é claramente um diferencial da Pedagogia Waldorf; por outro lado, eu gostaria de saber quais escolas fora dessa pedagogia usam alguma psicologia do desenvolvimento, seja lá qual for e em que fases do amadurecimento.

2.8 Vou transcrever em seguida o 5º parágrafo por ele ser altamente positivo; não tenho praticamente nenhuma objeção a ele:

"Existe, todavia, um critério que, acima de todas as considerações teóricas, é decisivo para o julgamento de uma personalidade: seu sucesso ou insucesso na prática. Com o seu impulso pedagógico, Rudolf Steiner deu origem a um movimento que há muito ultrapassou os limites do seu país e sempre encontra novos adeptos na sua aplicação pedagógico-escolar. Adeptos que, numa época em que se multiplicam os suicídios de crianças, querem abrir para elas, não raro com grandes sacrifícios financeiros, um caminho, através de uma escola humana. Uma escola que ao longo de muitos anos, com a conservação do princípio do ensino em classe, garante às crianças uma pessoa de referência confiável, inteiramente comprometida com a individualidade e dignidade infantis, uma escola que não conhece distinção de sexo, confissão religiosa, classe social, não faz discriminação, censura, não reprova, e onde há muita prática, igualdade de chances e democracia; uma escola que rejeita o intelectualismo, a pressão por resultados, a tendência para a precocidade e a adaptação forçada, características do ensino público oficial; uma escola que através de uma multiplicidade de atividades manuais e criativas atende às necessidades de ação e de coisas concretas da criança: ‘O sentido artístico do educador e professor dá alma à escola. Permite ser alegre nas coisas sérias e ter caráter na alegria. Pela inteligência, a natureza é somente compreendida; pela sensibilidade artística ela é vivenciada.’" (p. 133.)

Seria talvez interessante acrescentar que existem estudos estatísticos mostrando os excelentes resultados da Pedagoga Waldorf. Um deles é o trabalho de Wanda Ribeiro e Juan Pablo de Jesus Pereira, que entrevistaram mais de 100 ex-alunos da Escola Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo; um outro é um trabalho mais extenso feito nos Estados Unidos.

2.9 Igualmente não tenho maiores reparos quanto ao restante do capítulo, que também encara a Pedagogia Waldorf muito positivamente. Para finalizar, duas observações a um trecho do último parágrafo: "[...] o criador da escola Waldorf, no seu anseio de cristificação do mundo, conseguiu êxito pelo menos em uma área: nas escolas em que seus impulsos pedagógicos diariamente determinam a vida comum das crianças e dos seus educadores."

Deve-se entender a palavra "cristificação" de modo adequado, e distingui-la de todas as outras "cristificações" correntes. No sentido da Antroposofia, essa palavra significa, de modo geral, : a dignidade, a individualidade e a liberdade do ser humano; o irrestrito respeito mútuo e pela natureza; o amor altruísta; o reconhecimento de que existe uma realidade não-física nos seres humanos e no universo que vai desabrochando durante toda a vida; uma capacidade de investigar objetivamente essa realidade; o conhecimento da distinção essencial entre seres humanos e animais; o reconhecimento da existência de um sentido superior para a vida humana e para a natureza; o reconhecimento de que, no passado, a humanidade estava em contato com os mundos espirituais, que caiu na matéria mas dela deve erguer-se novamente, sem perder tudo o que foi conquistado; o reconhecimento de que as antigas tradições míticas e religiosas são imagens para realidades que podem ser investigadas.

Finalmente, o êxito de Rudolf Steiner e sua Antroposofia não se deu somente na educação: também ocorreu na medicina e nas terapias antroposóficas, na Pedagogia Curativa, na Agricultura Biodinâmica, na Arquitetura Orgânica, na organização social e empresarial, nas artes em geral e na nova arte da Euritmia.

3. Conclusões

Ao contrário do capítulo "Rudolf Steiner 1961-1925" do livro 50 Grandes Educadores: de Confúcio a Dewey, citado na Introdução acima, onde o tom é francamente negativo e sobre o qual tive que fazer inúmeros reparos, parece-me que o balanço do capítulo de März é bastante positivo. Tem-se a impressão, pelo que ele escreveu, principalmente nos últimos parágrafos, que pelo menos ele visitou algumas escolas Waldorf, ou leu trabalhos objetivos sobre a Pedagogia Waldorf, e não obras dos detratores da mesma (como em qualquer atividade humana, sempre há os que são contra).

É uma pena que os meios acadêmicos continuem a ignorar a realidade da Pedagogia Waldorf e seus excelentes resultados. Não tenho esperança de que isso mude, pois eles não deixarão de ser, a médio prazo, dominados por um materialismo preconceituoso e, portanto, contrário a uma atitude genuinamente científica (a esse respeito, ver meu artigo "Ciência, religião e espiritualidade").

Agradecimento

Agradeço a Anderson Paulino ter-me chamado a atenção sobre o capítulo do livro de März, e solicitado que eu desse um parecer sobre ele. É muito prazeroso trabalhar sabendo-se que o resultado está sendo aguardado.


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