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INICIATIVAS COM INSPIRAÇÃO ANTROPOSÓFICA
NO TERCEIRO SETOR

Organizado inicialmente por Coralia Walter

Na tentativa de entender o presente, para vislumbrar o futuro, apresentamos aqui algumas considerações no sentido de criar uma base mais concreta para entender a questão social e nos orientar para uma ação social significativa.

Reflexões gerais: o Brasil no contexto mundial

UMA VIDA COM DIGNIDADE

por U. P. Trier, extraído do artigo "Uma janela para o desconhecido"

A Suíça é um lugar bonito, cômodo e tranqüilo para viver e pensar sobre o futuro; no entanto, antes de olhar para o futuro pela janela, rapidamente abro uma outra janela que não dá para o futuro, mas para o presente bem conhecido por todos, esse que existe nos continentes distantes do meu, mas que não me são alheios. A humanidade está dividida hoje em dois mundos muito diferentes. Em um deles, as mães de família não podem ter certeza se "amanhã" poderão alimentar seus bebês; as famílias não têm moradia; os níveis de educação e expectativa de vida são baixos; o conceito dos direitos humanos não significa nada; e se matam homens, mulheres e crianças em grandes quantidades.

Existe um claro limite entre esses dois mundos, ainda que não seja só de índole econômica ou continental. Tampouco é demarcado por termos cunhados tais como o "Terceiro Mundo", o "Norte contra o Sul" ou "os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento". Essa fronteira atravessa cidades, regiões ou nações e o que a define é o fato de que os seres humanos possam, ou não, viver com dignidade.

Atualmente, fala-se e se escreve muito sobre "os pobres". O Banco Mundial organizou suas denominadas "consultorias sobre os pobres" e escreveu supreendentes livretos sobre suas condições. A comunidade educacional está ocupada com um vigoroso debate sobre os conhecimentos que os sistemas de educação deveriam priorizar. Não obstante, ela é propensa a incorrer em uma falácia comum: passar por alto sobre o impacto das condições de vida de cada pessoa e concentrar-se no fornecimento de conhecimentos adequados e na elaboração de listas de instrumentos, habilidades e competências para os alunos. Nem sempre presta a devida atenção ao fato cruel de que sem moradia, alimento, proteção à saúde, segurança adequada e acesso à educação básica, as pessoas não podem levar vidas dignas e, portanto, não podem ser responsabilizadas pela construção de seu futuro.

Nossa capacidade de encontrar condições de vida melhores em nossas sociedades, principalmente nas mais fracas, será um fator decisivo nas próximas décadas. A educação é importante para alcançar esse objetivo, ainda que não seja o único fator determinante. A realidade é que as sociedades influenciam a educação e a educação influencia a sociedade.

Para ilustrar esse ponto, apresentarei três exemplos. Se vivêssemos em uma sociedade mundial onde a fabricação de armas fosse limitada a uma pequena produção controlada – ou seja, aquela necessária para uma força policial legítima –, obviamente nossas sociedades estariam mais seguras, independentemente das capacidades básicas, sociais ou cívicas adquiridas individualmente. Por outro lado, sendo menos dramáticos, imaginemos os programas de televisão mostrando pistolas e armas como costumava acontecer nos filmes dos anos cinqüenta de Hitchcock. Sem dúvida, diminuiriam nossas necessidades em relação à educação para prevenir o crime. Por último, enfocando um dos fatos mais horríveis e incríveis de nossa época, devemos nos perguntar: quem é realmente responsável pela morte de milhões de crianças e jovens por causa da Aids na África? São os pais analfabetos e as escolas ineficazes, ou as condições econômicas e políticas prevalecentes e os interesses das multinacionais?

Minha mensagem é simples: todos nós estamos sempre nos desenvolvendo e atuando em um campo político. Isso significa que nossas atividades e decisões relacionadas com as questões sociais, econômicas e culturais decidirão o futuro. E as políticas visionárias de desenvolvimento sustentável poderão marcar uma diferença entre os povos que vivem sem esperança e aqueles que aspiram a viver um futuro digno. Apenas as sociedades que vivem em paz social sobreviverão no século XXI. Serão aquelas que proporcionam um nível mínimo de bem-estar a todos, que promovem uma distribuição de riqueza orientada para a igualdade, que protegem os direitos humanos, lutam contra a violência em todos os setores e níveis e garantem a aplicação das normas jurídicas.

O Brasil Ameaçado: Um diagnóstico

O Brasil passa por um quadro de grandes dificuldades, que trarão conseqüências muito amargas para o povo brasileiro e para o mundo.

Assiste-se, através dos meios de comunicação de massa, a um desfile permanente de atos e fatos que ferem nossos sentimentos, chocam a moral, agridem os direitos do cidadão, ofendem o Estado e escarnecem da Justiça – e a nação se assusta.

A transgressão torna-se hábito, a certeza da impunidade anima até mesmo os covardes a transgredirem a lei – e a moral declina.

Grupos de assassinos dominam os presídios, o tráfico de drogas chega a níveis absurdos e quadrilhas controlam as favelas, onde a policia não ousa entrar – e o Brasil treme.

Jovens tornam-se mães solteiras com idades cada vez mais baixas, a cada 4 minutos uma mulher é violentada, crianças vão para as ruas em numero cada vez maior e pobres morrem por falta de remédios cada vez mais caros e por falta de leitos hospitalares – e a nação se debilita.

A sensação de segurança desaparece atrás das grades que se multiplicam protegendo as casas, invertendo a ordem social enclausurando o homem de bem; o cidadão comum não sai à rua e o turista não vem ao Brasil – e o país se envergonha.

Agricultores perdem parte das colheitas por falta de transporte; estradas esburacadas levam a portos obsoletos controlados por uma estiva que só quer ganho e o comércio internacional procura outros parceiros – e o Brasil fica mais pobre.

Quase a metade da população brasileira vive em moradia sem infra-estrutura básica. Em São Paulo, 18.000 pessoas moram na rua.

A esses excluídos tradicionais juntam-se agora novos excluídos. São filhos da atual prática da globalização, inexoravelmente condenados pelas leis do mercado, porque nem sequer chegam a ele (a taxa de desemprego em São Paulo foi de 20% em 2004 e 20% ganham menos de 1,5 salário mínimo).

Histórico de solidariedade – algumas reflexões

Os gestos de solidariedade social individual e espontânea organizaram-se gradativamente em entidades beneficentes, destinadas a amparar crianças e adolescentes necessitados. Um exemplo pioneiro desta linha de ação foi a criação da "Roda dos Expostos" por Romão M. Duarte em 1732, no Rio de Janeiro, que recebia os bebês abandonados. Essas atividades filantrópicas foram corrigindo seus erros e se aprimorando. No século XX amadureceu a idéia de que estruturas políticas econômicas determinavam as condições sociais que explicavam o pauperismo de grande parte da população, com conseqüências na saúde das crianças e adolescentes. Nasceu o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 12 de Outubro de 1990, reiterando o artigo 227 da Constituição Federal: "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a vida, a saúde, a alimentação, a educação, ao lazer, a profissionalização, a cultura, a dignidade, ao respeito, a liberdade e a convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".

Críticas da atividade das entidades sociais alegam que elas não resolvem os problemas básicos, servindo de amortecedoras de conflitos sem solucioná-los verdadeiramente. A essa alegação pode-se contrapor que é impossível deixar de ajudar a quem precisa no momento em que isso é necessário. Pode-se deixar de socorrer um atropelado em acidente de transito, mesmo sabendo que é preciso construir uma passarela no local? Corre-se o risco de assumir uma atitude niilista, com o sentimento de que o problema ultrapassa os limites da ação individual. A isto se deve contrapor que a realidade social é construída por seres humanos e por eles pode ser modificada, a partir da tomada de consciência individual. Além do mais, o conjunto depende do somatório de ações individuais e não se pode abrir mão da responsabilidade pessoal. A atividade profissional individual deve ser complementada por atividades de outro nível, que contribuam para aperfeiçoar a sociedade. E mais: Não se constrói uma civilização grandiosa visando apenas os lucros imediatos e interesses pessoais. As obras de valor só amadurecem na posteridade. Só os nossos filhos ou netos poderão usufruir a reforma que hoje fizermos. Não é suficiente só evitar a morte de milhares de crianças. É preciso conseguir a sua recuperação física, intelectual, moral e espiritual, a fim de se tornarem personalidades úteis a si, à comunidade e ao país, contribuindo para o desenvolvimento da humanidade.

O positivo desse quadro assustador é que ele motiva as pessoas a se organizarem e acharem soluções principalmente na sociedade civil organizada. Igrejas, ONGs, alianças e movimentos agregam milhares de pessoas em ações de assistência e promoção social. O Brasil é um dos países com o maior numero de ONGs no mundo: educação infantil, centros comunitários, asilos, creches, abrigos para crianças abandonadas e portadoras de deficiências ou de HIV, etc. Existem projetos de protagonismo juvenil, de saúde, cultura, lazer, profissionalização, luta pela moradia, pela terra, pelos direitos humanos, pela paz. É impressionante ver quantas pessoas e instituições mobilizam-se, principalmente das classes media e baixa.

O poder publico, por sua vez, tem programas e projetos como o "Fome Zero", de juventude, de segurança pública, além de melhora da educação, graças ao Estatuto da Criança e do Adolescente, a nova LDB (Lei de Diretrizes de Base para Educação), melhoria de atendimento à saúde graças à implantação do PSF (Programa de Saúde da Família), auxilio moradia, bolsa trabalho, "começar de novo", "renda mínima", seguro desemprego e tentativas de democratização por meio do orçamento participativo. Infelizmente, o resultado desses programas não tem sido suficiente para mudar significativamente a situação social no Brasil.

O segundo setor (empresas) descobriu a sua responsabilidade social. Lamentavelmente os resultados práticos ainda são por demais tímidos ou com interesses conflitantes. Existe a Abrinq, Fundação Ethos, Civis, e outras redes que incentivam principalmente os empresários a assumirem seu papel social. Infelizmente ainda estamos somente no inicio desse movimento.

Resumindo, podemos pensar que essa recuperação do Brasil depende de:

  1. Esforço de empatia e consciência de cada um.
  2. Esforço de se juntar em comunidades solidárias, isto é, da sociedade civil organizar-se.
  3. Diálogo e cooperação entre os três setores da sociedade (empresas, governo e organizações não governamentais).
  4. Criação de políticas publicas de inclusão a nível nacional e internacional.

Os fóruns sociais mundiais, nacionais e regionais são tentativas nessa direção e o Brasil é um dos maiores promotores dos mesmos.

E o movimento antroposófico?

Existem fatores de ordem mundial (desestruturação interna) e outros mais evidentes e cruéis nos países em desenvolvimento como o Brasil (desestruturação econômico-social). Para visualizarmos melhor a inserção do movimento antroposófico na questão social apresentamos em seguida um resumo da situação social atual.

I) Influência dramática dos fatores econômicos. Como vimos, eles dão o pano de fundo de uma grande variedade de problemas: fome, moradia indigna e falta de moradia, violência, desemprego, exclusão (da mulher, social, física, de idosos).

Esses e outros fatores acarretam a falta de meios de subsistência e isto, por sua vez, acarreta prostituição infantil, venda de órgãos, venda de mulheres para o exterior, trabalho infantil ilegal, êxodos dos intelectuais para países ricos, empregos ilegais inclusive tráfico de drogas e armas, etc. Além de terem origens desde a época colonial e da escravatura, há causas recentes ligadas a nosso tipo de organização política e governamental, bem como ao neoliberalismo.

II) Desagregação cultural e individual, um fenômeno mundial:

Evidentemente, os problemas não se apresentam tão separados como aqui esboçados, mas se entrelaçam. Além disso, questões como a falta de eixo interior atinge tanto as camadas empobrecidas como as mais abastadas.

Há um complexo de problemas ligados à economia e à política mundial que são assuntos não diretamente acessíveis ao movimento antroposófico. Mas, semelhante à sociedade civil não antroposófica, os indivíduos podem engajar-se no movimento de direitos humanos, no movimento pela paz, nos movimentos sociais... Eles podem também, por meio de um esclarecimento político maior e um incentivo aos protagonismo juvenil, participar dessas lutas existentes. Infelizmente, só em raríssimos casos isso acontece.

Uma visão ecológico-social das empresas pressupõe que elas consigam integrar-se com os efeitos sociais que elas mesmas geram e criam. Dessa forma, elas desempenham um papel primordial no desenvolvimento dos trabalhos sociais, culturais e educacionais.

A respeito do papel das empresas devemos mencionar a idéia central da Trimembração do Organismo Social, que prevê que a vida cultural-educacional-social seja alimentada pela vida econômica. Com exceção da Associação Tobias é raro encontrar esse entrelaçamento econômico. É por meio do desenvolvimento das capacidades humanas que podemos criar a energia para provocar as grandes mudanças na realidade social.

No segundo item – o da desagregação do individuo e a falta de orientação interna – o movimento antroposófico parece ter mais vocação. Existem inúmeras iniciativas de educação, saúde, cultura, arte, reorganização biográfica, consultoria social em empresas e alimentação, que em resumo, procuram facilitar a procura do caminho individual espiritual (veja www.sab.com.br).

No sentido de que essas iniciativas propõem-se a serem acessíveis a todos que as procuram, independente da exclusão sócio-econômica, surgiram desde os anos 70 várias delas no plano de educação, escolas comunitárias, oficinas artísticas e profissionalizantes, centros culturais e ambulatórios comunitários.

Todas elas têm um enfoque espiritual ligado à Antroposofia, embora o caminho normalmente seja de procurar soluções práticas boas para problemas prementes e só depois aparecer um real interesse pela fonte espiritual dessas práticas. É o caminho que parte do fazer, da transformação da realidade para o perguntar e querer conhecer a fonte. Os agentes sociais normalmente motivam-se pela dor do ser humano; depois de terem procurado várias maneiras de aliviar esses sofrimentos acabam, às vezes, chegando até o movimento antroposófico.

A Escola de Micael tem atuado em nossa época através de múltiplas iniciativas que não têm o cultivo claro do pensamento antroposófico. Dentro desses movimentos, como espiritismo, catolicismo, budismo, etc., existem fortes expressões sociais em nosso país; queremos incentivar a participação do movimento antroposófico nessas expressões visando a troca de experiências e a colaboração mútua.

Rudolf Steiner coloca no seu livro Considerações Esotéricas e Ligações Cármicas, volume IV: "As pessoas que abraçam hoje honestamente a Antroposofía preparam sua alma para encurtar o mais possível a vida entre a morte e o novo nascimento, para reaparecerem sobre a terra no final do século XX junto aos mestres de Chartres. ... Quase todas as almas que fazem parte da Antroposofia estão destinadas a voltar no final do século XX, quando deverá vir o momento da grande virada na vida espiritual da terra, porque de outra forma a civilização terrena acabará definitivamente em desgraça."

Lista de iniciativas do 3o. setor com inspiração antroposófica

Listamos em seguida algumas das iniciativas antroposóficas por nós conhecidas nos vários âmbitos de atuação social. Sabemos que existem muitas pessoas que estão se engajando socialmente, mesmo não pertencendo a uma entidade e reconhecemos a importância dessas atividades. Solicitamos aos leitores que contribuam para completar essa lista. Acione cada item para desviar para a página correspondente.

Aliança pela Infância (pedagogia)
APS – Associação de Pedagogia Social (desenvolvimento social)
Arco – Associação Beneficente (pedagogia)
Associação Beneficente Guainumbi (pedagogia curativa)
Associação Beneficente O Semeador (pedagogia)
Associação Beneficente Tobias (desenvolvimento social)
Associação Comunitária Monte Azul (desenvolvimento social)
Associação Comunitária Pequeno Príncipe (pedagogia)
Associação Crianças do Vale de Luz (pedagogia)
Associação Educacional Escolinha dos Pequenos (pedagogia)
Associação Rural de Artes e Ofícios Adão e Ema (artes e pedagogia)
Associação Travessia (pedagogia curativa)
CREAR - Centro Recreativo Educacional Artístico Renascer (pedagogia)
Escola Rural Dendê da Serra (pedagogia)
Fórum pela Humanização do Social (desenvolvimento social)
Instituto Artesocial (arte e pedagogia)
Instituto Ciência e Arte
Instituto Portal da Pedra (pedagogia)
Movimento Comunitário Estrela Nova (pedagogia)
Paidéia (arte/teatro)
Pedra Bela – Associação Beneficente para o Desenvolvimento Sócio-Cultural (desenvolvimento social)
Projeto Salva Dor (pedagogia Waldorf complementar para crianças carentes em Salvador, BA)
Sirimim Aprimoramento da Arte Farmacêutica (farmacêutica)


Última alteração: 29/9/11

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