O Caminho Interior
por Marcia Grechi Della Negra
por Marcia Grechi Della Negra
Entramos no terceiro mês do ano, março se anuncia e para nós que vivemos no hemisfério sul, as “águas de março, é o fim da canseira, é o pé, é o chão, é a marcha estradeira”. (Jobin 1972). O verão vai terminando e o outono vai chegando de mansinho.
A atmosfera da Terra se modifica durante as quatro estações do ano. A Terra respira. As festas do ano e o processo de inspiração e expiração da Terra se relacionam de forma diferente nos hemisférios norte e sul.
O outono iniciará na sexta feira dia 20 de março as 11:45hs e nos pede: “Olha à tua volta. Busca o conhecimento da natureza”. (Steiner -2024) A Festa da Páscoa acontecerá no primeiro domingo após a Lua cheia, 05 de abril.
A Festa da Páscoa se apresenta diante de nossas almas dentro dessa atmosfera de outono, mas no hemisfério norte ela acontece no início da primavera que nos pede: “Conhece-te a ti mesmo. Faça penitência”, quando aqui no hemisfério sul comemoramos a Festa de Micael.
Acredito que podemos unir esses dois apelos à alma humana.
No outono quando a vida nos pede: Olha a tua volta, busca o conhecimento da natureza, somos incentivados a nos conectarmos com os acontecimentos da Semana Santa e a culminação dos três anos de permanência do Ser Crístico na Terra.
Cor Imagem I, de Adriano Raphaelli
Na 2ª conferência do livro O ciclo anual como processo de respiração da Terra e as quatro grandes festas do ano, Steiner nos descreve a maneira como devemos buscar vivenciar os acontecimentos da Páscoa para que possamos “reintroduzir vida nas forças anímicas paralisadas do ser humano”. (Steiner 2024)
“Hoje é chegado o tempo em que o pensamento pascal deve despertar outra vez como um pensamento vivente. Mas, para despertar, ele deve justamente passar da condição da morte para a condição da vitalidade. O que caracteriza o vivo é que ele gera outros viventes a partir de si. Quando o pensamento pascal se disseminou pela cristandade nos primeiros séculos cristão, a disposição de ânimo geral ainda era suficientemente receptiva para passar por uma poderosa experiência interior ao contemplar o túmulo de Cristo e ao contemplar o ser que se ergue do túmulo e se liga, daí em diante, a humanidade. Tal disposição de ânimo podia vivenciar vigorosamente em seu interior o que se achava colocado perante sua alma nesta poderosa imagem. E essa vivência interior era uma realidade para a vida anímica humana. Uma realidade para a vida anímica humana apenas o é aquilo que esta alma humana realmente capta, de modo análogo ao que os sentidos captam do mundo exterior sensorial. Por terem contemplado o acontecimento da morte e da ressurreição do Cristo, os seres humanos sentiam-se modificados. Sentiam-se de tal forma transformados, animicamente por esta contemplação como, de outra forma, o ser humano se sente transformado ao longo de sua vida na Terra pelos acontecimentos físicos.” (Steiner 2024)
No decorrer dos séculos, a festa da Páscoa foi gradativamente perdendo seu significado, que foi sendo substituído por elementos que em nada revelam o que de fato deveríamos estar vivenciando nesta época. Precisamos buscar o que é verdadeiro quando olhamos para os acontecimentos da Páscoa.
O Cristo crucificado, “que passou pela morte, venceu a morte, passou pela ressurreição, se ligou inicialmente à humanidade, de tal maneira que ainda pôde fazer revelações, àqueles que eram originalmente os apóstolos, os discípulos”, nos traz a imagem completa desse acontecimento, mas temos que realçar o que Paulo nos recorda: “Se o Cristo não tivesse ressuscitado, seria vã a vossa fé!” (Steiner 2024).
O desafio que nossas almas enfrentam, na nossa época, é vivenciar esses acontecimentos, não apenas como um fato isolado, mas em conexão com o mundo que aparece perante os sentidos.
Sendo assim, a festa da Páscoa deveria ser vivenciada entre nós como o “período em que as folhas começam a amarelar, a cair das árvores, em que os frutos amadurecem, em que o Sol recebeu aquele poder graças ao qual amadurecem o que na primavera eram forças vicejantes de florescimento e crescimento, mas que também provocam fenecimento e deixam que outra vez baixem ao interior da Terra; quando aquilo que se desenvolve sobre a Terra começa a tornar-se um símbolo do sepulcro.” (Steiner 2024). O pensamento que corresponde a festa da Páscoa nos remete ao Cristo no túmulo de onde ele ressuscitou e venceu os poderes arimânicos.
Na festa de outono no hemisfério norte encontramos o pensamento de Micael: ”Acolhe em ti o pensamento de Micael vencedor dos poderes arimânicos; esse pensamento que te capacita a conquistar conhecimentos espirituais aqui sobre a Terra, com os quais podes triunfar sobre os poderes da morte.” (Steiner 2024). A festa de Micael recordando e reafirmando as vivências da Páscoa se unem num único propósito.
É preciso buscar os conhecimentos esotéricos. Nossos pensamentos são abstratos e separamos o espiritual do físico, o que é percebido pelos sentidos vivenciamos como real e o desconectamos do espiritual.
No outono, quando as folhas caem, as flores murcham e os frutos amadurecem, fenômenos que podemos observar fisicamente, temos que ir além desse olhar apenas físico, mas procurar adentrar nessa atmosfera, entrar em sintonia com esses acontecimentos. Olha a sua volta, busca o conhecimento da natureza e sê prudente, esse é o desafio que emerge na alma humana.
É durante o outono que o “ser humano volta-se para si próprio. O que deve despertar agora, quando a natureza deixa alguém desamparado, é a coragem da alma. Novamente nos é apontado como deve ser uma festa da coragem anímica da força anímica da atividade anímica. Assim como podemos compreender a festa de Micael.” (Steiner 2024)
O outono coloca esse desafio perante nossas almas, algo que irá se realizar na primavera, na festa de Micael. A festa da Páscoa coloca diante de nós a ressurreição, Cristo venceu as forças arimânicas da morte física. No nosso entorno a natureza fenece, mas sabemos que isso é apenas a aparência a natureza renascerá. O que vemos acontecer como mistério de ressurreição encontramos a nossa volta observando a natureza.
Rudolf Steiner nos anuncia: “Quando se tiver aprendido a pensar com o curso do ano então se entretecerão ao pensamento aquelas forças que permitirão aos seres humanos outra vez manter diálogo com as forças divino-espirituais que se revelam partindo das estrelas”. (Steiner 2024)
Jonas Bach Jr, no prólogo do livro Um caminho para o autoconhecimento de Rudolf Steiner, nos recorda: “Herdamos dos gregos a imagem mítica de um processo que originalmente pertencia a tradição iniciática da humanidade: o Portal de Delfos. A insígnia no portal determinava a pré-condição para peregrinação no mundo deixado pelos Titãs. Delfos era um culto ao Deus Apolo. Sua mensagem para peregrinação da alma estava vinculada ao próprio significado apolíneo: sol, luz, verdade, purificação. A caminhada interna tem meta e os passos seguem a direção do emblema. “conhece-te a ti mesmo.” (Jonas Bach 2017)
Desde a época grega os desafios para o autoconhecimento se ampliaram. O materialismo que nos impõem uma vida sem alma e espírito nos leva ao vazio da existência. A antroposofia nos oferece uma oportunidade de nos reconectarmos com o ser espiritual que somos e ressignificar o sentido da vida.
Sabemos quão difícil é adentrarmos em nosso mundo anímico. Karl Konig em seu livro A alma humana a descreve: “A alma nunca repousa, nunca cessa, nunca termina. Está sempre viva, em movimento, ativa e se transformando - um movimentado panorama de forças, imagens, sentimentos e qualidades. Sempre que tentamos nos apoderar, a alma é mais rápida que o ato de agarrar e move-se para longe ... o que contemplamos ao redor na paisagem da vida diária é experiência diversificada da existência consciente com outro aspecto em nosso interior.” (Konig 2006)
Parece-nos muito difícil, lendo a descrição acima, manter um estado de calma interior e tranquilidade. Tudo nos toca e mobiliza. A alma vive neste cenário multifacetado, mas é o espírito que age atuando sobre a nossa vontade.
Um pequeno passo no caminho de busca de conhecimento esotérico pode começar quando nos perguntamos: Quem sou eu? A resposta mais frequente informa o que sabemos de nós mesmos, mas não quem somos. Sabemos quem são nossos pais, o dia, mês e ano de nascimento, o lugar onde nascemos, o que estudamos, os cursos que fizemos, e muitas outras informações que temos a nosso respeito, mas não sabemos quem somos. Perdemos a relação com nossa origem espiritual. Pensamos que nossos antepassados estão unicamente na Terra.
Através do despertar, pelo estudo da antroposofia, nos é revelado que somos os descendentes dos seres que configuram as hierarquias espirituais. Somos descendentes dos Anjos, Arcanjos e Arqueus, que não eram destinados à liberdade, uma vez que sua vontade refletia a vontade divina.
Então podemos responder à pergunta de quem somos nós na busca da realização do Portal de Delfos: Homem, conhece-te a ti mesmo! Somos seres espirituais construindo caminhos para realizarmos o destino que nos foi concedido: Sermos os seres do amor e da liberdade.
Quem busca o Aconselhamento Biográfico inicia com a realização da Retrospectiva Biográfica para a síntese da própria vida. Os acontecimentos relatados têm dia, hora, local e pessoas. Desses fatos guardo sentimentos, representações mentais e o resultado das minhas ações. Mas quem é esse que vivencia esses acontecimentos, o que vive neste ser, além das aparências?
Vive sua própria constituição. Vivem os elementos: terra-melancólico, fogo-colérico, água-fleumático e ar-sanguíneo, os quatro temperamentos que se manifestam no segundo setênio.
Vivem os planetas configurando o caráter: Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Manifestam-se no terceiro setênio.
Vivem as qualidades do zodíaco: Idealismo de áries; racionalismo de touro, matematismo de gêmeos; materialismo de câncer; sensualismo de leão; fenomenalismo de virgem; realismo de libra; dinamismo de escorpião; monadismo de sagitário; espiritualismo de capricórnio; pneumatismo de aquário e psiquismo de peixes. Conduzem nossas ações em direção ao mundo a partir do quarto setênio.
Vive um Eu que carrega em si uma missão que o impulsiona ao autodesenvolvimento, mas que precisa antes conhecer as forças adversas que atuam sobre sua vida anímica. Reconhecer sua luz e as sombras que se manifestam em nós.
O que foi descrito acima não se adquire pela ação do mundo físico em nós, nem pela cultura humana, trazemos conosco como “herança”, como necessidade espiritual para um caminhar em cada nova encarnação. Este ser está submetido às leis espirituais de reencarnação e carma.
Nosso corpo físico pertence à Terra e de seus elementos minerais que nos formam. Nossa alma faz a conexão entre o céu e a Terra. Nosso Eu aprende, na Terra, a conduzir a alma. Como um maestro que diante de sua orquestra compõe, a partir dos instrumentos de que dispõe, o que lhe foi destinado realizar.
Quando olhamos nossa biografia, encontramos as leis que a regem, leis espirituais. Os ciclos cármicos nos revelam as exigências cármicas que determinam as condicionantes que se apresentam (do nascimento aos 21 anos); os encontros e locais cármicos (dos 14 aos 35 anos) e realização da missão de vida (dos 28 anos em diante).
Na vida terrena esse ser enfrenta três grandes adversários que surgem como forças que se opõe a busca do conhecimento do espírito: dúvida no pensar, ódio no sentir e medo no agir.
A Festa da Páscoa se apresenta como um grande desafio para a alma materialista: mergulhar no mistério da ressurreição. Somente através de férrea decisão poderemos penetrar no entendimento desse acontecimento decisivo para a história universal. Se assim nos permitir nosso carma individual, poderemos vivenciar diretamente esses acontecimentos.
Quem busca a si mesmo encontra nos elementos, nos planetas, no zodíaco, nas hierarquias espirituais o sentido de sua existência. Encontra no Cristo, o Senhor do carma. Aquele que nos conduz pelos caminhos em busca da verdade, vivendo a vida.
Que o outono nos traga a vivência interior que possa nos conectar de forma viva com a Festa da Páscoa.
Referências Bibliográficas:
Jobim, A.C.B.A. Águas de março, compositor brasileiro. Álbum Matita Perê, Poço Fundo, Rio de Janeiro, Março de 1972
Steiner, R. O ciclo anual como processo de respiração da terra e as quatro grandes festas do ano, 5ª conferência; tradução de Marco Antônio Clímaco. São Paulo: Antroposófica, 1ª edição, 2024
Steiner, R. Um caminho para o autoconhecimento GA 016, tradução Jonas Bach Jr.. Curitiba: Lohengrin, 1º edição, 2017
Konig, K. A alma humana. Tradução Ana Cristina Corvelo e Sonia Loureiro. São Paulo: João de Barro 1ª edição, 2006
Marcia Grechi Della Negra | Psicóloga e Aconselhadora Biográfica. Gestora e Docente da ELEB-SP (Escola Livre de Estudos Biográficos de São Paulo). Docente convidada - CESARE – Centro de estudos SARE – Curso de Formação em Psicologia Antroposófica.
Co-autora dos livros:
O impulso Biográfico e suas origens na Artemísia -Compilação e organização Gudrun Burkhard. São Paulo: Antroposófica 2014
No umbral da morte. Antroposofia e os cuidados no fim da vida - : Organizador: Ciro Augusto Floriani. São Paulo: Antroposófica 2014
Aconselhamento Biográfico o que é, para quem e como acontece. Coletânea de textos de Aconselhadores Biográficos. Organização ABAB (Associação Brasileira dos Aconselhadores Biográficos) São Paulo: Reality Books 2023
Adriano Raphaelli | Artista plastico e terapeuta artistico. Atuação em consultório e docente em artes em formações de pedagogia Waldorf e terapia artística. Coordenador da Toré - Escola de Formação de Terapia Artística de SP.
Cor Imagem I | aquarela | papel fabriano 300gr A4
Contato: (11) 91358-2525