Sementes para uma contribuição ética e estética à Cultura contemporânea a partir de um impulso eurítmico brasileiro
por Marília Barreto
por Marília Barreto
Amada vida, minha morte demora,
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem?...
Hilda Hilst
em Poemas aos Homens
do nosso tempo (1974)
Quando, no final dos anos 1980, um grupo de jovens brasileiros recém formados na arte da Euritmia na Europa retornava ao Brasil, com a missão de construir nestas terras uma Euritmia com caráter, conteúdo e temperamento brasileiro, nos deparamos primeiramente com a tarefa, fascinante e ao mesmo tempo severa, de termos que reconectar novos ouvidos com a nossa língua materna, uma vez que a Euritmia tem no fluxo vital da língua falada o substrato para sua expressão, em forma de movimento coreográfico. Tendo aprendido suas regras fundamentais no idioma alemão ou holandês, tendo mesmo nos interessado por como Rudolf Steiner havia proposto o gesto escultural dos fonemas eurítmicos em línguas como o inglês, o francês, o russo... e, conhecedores e devotos que nos tornamos da profundidade desses movimentos, que lhes confere inclusive potencial para a cura, sabíamos que caberia a nós, primeiramente, descobrir o gesto primordial de cada fonema da língua portuguesa falada no Brasil, para podermos expressar, através desse manancial, artisticamente e sem “sotaque estrangeiro”, a alma brasileira que flui através da nossa comunicação oral e gestual. Tive a felicidade de integrar esse primeiro grupo, o Grupo de Euritmia de São Paulo, onde por muitos anos gozamos do privilégio de sermos compreendidos e apoiados por muitos antropósofos na missão que se impunha a nós, e que requereria um grande trabalho de pesquisa no campo artístico, ao lado do trabalho cotidiano que assumimos como professores de euritmia nas escolas Waldorf, ao qual também nos dedicamos crescentemente.
Coube aqui uma ampla redescoberta da literatura brasileira e seus inúmeros protagonistas, autores e poetas que fomos descobrindo ou reconhecendo com admiração e encantamento. Também no campo da música de composição, com a ajuda de muitos excelentes pianistas que nos auxiliaram na pesquisa da música brasileira do século XX, pudemos descobrir um tesouro imenso que viria a ampliar e enriquecer nosso trabalho artístico, bem como despertar o interesse do público geral e, mais tarde dos alunos do ensino médio, por esse campo da música brasileira, então ainda tão pouco desbravado por muitos de nós.
Foram quase dois setênios de trabalho diário com a euritmia artística, que gerou belos espetáculos e memoráveis turnês, nacionais e internacionais, numa pesquisa profunda que fundamentou a expansão da Euritmia para novos terrenos e campos de atuação. Muito dessa história foi recentemente condensado no documentário de Thiago Capella, intitulado Alma Brasileira, que se encontra em fase de ajustes finais junto à ABRE, a Associação Brasileira dos Euritmistas, esta também fruto do caminho institucional galgado pelo Grupo de Euritmia de São Paulo no início dos anos 2000.
Tanto para a criação de uma Formação de Euritmistas no Brasil, conduzida por Claudio Bertalot, Renate Nisch e outros parceiros, como para sua extensão para os campos terapêutico, social, empresarial e para o esforço por expandir a Euritmia no campo pedagógico para novas regiões do país, o trabalho inicial com a Arte era entendido por nós como a fonte fundadora capaz de conferir consistência vital, anímica e espiritual para uma Euritmia brasileira, mantendo como seu fundamento maior a antroposofia. Logo entendemos também que o sucesso dessa arte nas escolas se fundamentaria num trabalho eminentemente artístico junto às crianças e jovens – e nisto o Brasil vem se destacando nos últimos 20 anos, não só com as crianças menores, como em especial no trabalho com jovens de ensino médio. Há anos a Euritmia Jovem brasileira é reconhecida internacionalmente como inspiradora e original. Ela nasceu na Escola Waldorf Rudolf Steiner no começo dos anos 2000 a partir do trabalho de Marília Barreto e Marisa Bernardi, alastrou-se para outras escolas e centros onde ela viceja nos dias de hoje, com destaque aos trabalhos em Botucatu/Bauru, por Suzana Murbach, em Piracicaba, por Kleber Akama e novamente na Escola Rudolf Steiner, por Daniela Meireles. Ademais, ela cresce ainda no ensino médio de outras escolas de São Paulo, gerando encontros festivos de Euritmia entre os jovens, todos os anos.
Apesar de tanta expansão e vitalidade em muitos âmbitos, mais difícil e escassa foi se tornando a Euritmia profissional enquanto ARTE. O trabalho especializado e cotidiano nas instituições onde atuam os euritmistas, a dificuldade da vida moderna nas cidades, a imensa extensão do território brasileiro, e não por último os desafios econômicos e financeiros a que estamos continuamente expostos, têm dificultado a atividade mais contemplativa e reflexiva para uma produção artística consistente e sua projeção na vida cultural do país. É sempre um alento podermos ver esforços nessa direção, como o que pudemos presenciar recentemente no âmbito do Seminário de cristologia, da Sociedade Antroposófica, no Espaço Cultural Rudolf Steiner, através de um programa dedicado a João Guimarães Rosa, produzido pelos docentes da Formação em Euritmia do Brasil ¹.
Nesse sentido, e para atender à missão de construir uma Arte capaz de dialogar com o nosso entorno e com o nosso tempo, a Cia Terranova foi criada e, desde 2014, vem construindo um caminho de novos aprendizados e diálogos, ampliando seus parceiros e seu público através de espetáculos, oficinas, entrevistas e palestras, sempre buscando compreender o tempo atual e os desafios que nos acometem e exigem de nós novos empenhos e posicionamentos. Em tempos disruptivos e fragmentados como o atual, turbinados por miríades de informações, fragmentações, contradições, exacerbações, de uma astralidade irresponsável e um intelectualismo fragmentador, não podemos nos furtar à pergunta sobre a nossa missão com e pela Euritmia enquanto expressão estética do nosso tempo, e buscar compreender suas possibilidades e contribuições de forma edificante e seminal para o futuro não somente da sociedade brasileira como do ser humano e, por conseguinte, da civilização.
Dizer que coisa ao homem, propor que viagem?...
Em seu conjunto de poemas intitulado Poemas aos Homens do nosso tempo, criado nos anos tensos da ditadura militar no país, a laureada poeta brasileira do século XX, Hilda Hilst (1930-2004), expressa sua indignação para com os acontecimentos daquele tempo no Brasil. Mas Hilst o faz de forma tão poética que suas palavras se expandem para outros tempos e dimensões da construção civilizatória, e permanecem vivas e inspiradoras. Não é assim que se dá com os grandes criadores da História?...
Transpondo abismos – um breve panorama
No começo do século XX, por mais de uma década o célebre compositor húngaro, Bela Bartók (1881-1945), empreendeu inúmeras viagens pelas regiões campestres mais precárias do Leste Europeu, juntamente com seu amigo compositor e pedagogo Zoltán Kodály, em busca de elementos originais da música camponesa, que viriam a revolucionar a sua composição musical. Filho de músicos, Bartók tinha uma formação clássica sólida. Mas elementos da música folclórica dos povos do leste, já introjetados nas Rapsódias Húngaras de Liszt, ou nas Danças Húngaras de Brahms, despertaram seu interesse pela complexa e rica trama composicional dessas origens. A reaplicação de antigas escalas, redescobertas nas canções campesinas em seus anos de investigação, possibilitou novas combinações harmônicas para a música erudita de seu tempo, tornando as criações de Bartók altamente vitais e sofisticadas, algumas muito atuais em estilo e de difícil execução até os dias de hoje.
Em outro polo do planeta, um seu contemporâneo, Heitor Villa Lobos (1887-1959) – que desde criança teve uma formação musical erudita com seu pai, frequentou concertos e aprendeu instrumentos da orquestra clássica – ainda jovem se encantou com os ritmos populares da música brasileira e, entre seus 18 e 25 anos, viajou por todo o Brasil para colher elementos da música de todos os cantos e povos do país. Aos 40 anos foi viver em Paris, onde pôde consolidar muito da música europeia em sua veia criativa. De volta ao Brasil deu continuidade à sua prolífica produção musical, vindo a ser aclamado mundialmente como gênio da música brasileira.
Algo semelhante vemos no Movimento Armorial, criado em 1970 no Recife por Ariano Suassuna, movimento que pretendia abranger todos os campos da cultura, e que tem em Antonio Nóbrega, até os dias de hoje, um protagonista de destaque na área da dança e da música. O Movimento propõe uma revolução nas artes, calcada nos elementos da cultura nordestina brasileira, e revela uma riqueza singular ao conduzir a multiplicidade dos elementos folclóricos nordestinos, apoiados no rigor da tradição composicional ocidental.
Também em Oswald de Andrade e seus contemporâneos, artistas e pensadores celebrizados como fundadores do Modernismo Brasileiro que, no começo do século XX, buscaram romper com a tradição cultural europeia e criar em solo tupiniquim uma cultura “genuinamente brasileira”, vemos gestos que inauguraram, sim, uma era de brasilidade. Mas também se pode reconhecer em suas obras alicerces construídos sobre saberes, técnicas e até mesmo sobre rupturas aprendidas na Europa por seus criadores. Tupi or not tupi, that is the question – cita o Manifesto Antropofágico, documento fundador do movimento, criado por Oswald de Andrade, já mostrando seu alicerce na poética (e na língua!) shakespeariana, revestida aqui do intuito de integrar visceralmente, através da metáfora do comer, deglutir, digerir outro ser humano (prática adotada por algumas tribos indígenas), as características do outro, que se pretendia introjetar - no caso, os povos indígenas. Ainda que conferindo às suas obras um colorido especial e um tempero inovador, toda nova “comida” agrega inexoravelmente o alimento absorvido anteriormente pelo organismo que agora se pretende inventor.
Pontes que conectam mundos
Vemos muitas vezes em verdadeiros criadores no decorrer da História – não só artistas, mas também cientistas, pensadores – que a busca por aprofundar uma questão específica, particular, quando feita com maestria e maturidade, acaba por oferecer à humanidade uma obra engrandecida, abrangente, que transcende seu propósito original, um resultado capaz de produzir metamorfoses, novas sínteses, ao invés de segregações. E o sentimento que brota na alma é a gratidão!
Nosso maior escritor e poeta brasileiro – ouso dizê-lo –, o grande João Guimarães Rosa (1908-1967), soube melhor do que ninguém viver e expressar esse mistério. Em sua obra prima Grande sertão: veredas, falando do sertão, na história do jagunço Riobaldo em suas aventuras vividas no século XX pelo interior de Minas Gerais, Bahia, Goiás... quando Rosa resume “sertão é dentro da gente”, ele individualiza, ao mesmo tempo em que pluraliza; propõe o local para atingir o universal; e por isso se eterniza.
A construção da civilização humana na Terra, elucidada em detalhe e profundidade por Rudolf Steiner em sua antroposofia, revela esse mistério de forma extraordinária. Os caminhos percorridos pela humanidade em milênios de História, atravessando Índia, Pérsia, Egito, Grécia, Roma, Europa Central, até a Península Ibérica, rompendo seus limites além-mar para as Américas, integrando ali, como em todos os outros territórios percorridos, os frutos encontrados, naturais e humanos, e tendo o Cristo, desde sempre e para sempre, como o Sol-guia, revelam o arquétipo de um grande gesto que se faz no tempo, por dimensões milenares. Inaugurando e metamorfoseando impulsos específicos, gerando por vezes até aparentes contradições, através de avanços, lutas, conflitos, para produzir conquistas necessárias, esse grande percurso revela nos feitos da humanidade o germe alquímico que será base para as obras humanas vingarem, deixando um legado evolutivo e verdadeiro para cada época, inserindo-se, assim, essas obras, na corrente evolutiva da Civilização e da Cultura.
É nesse grande fluxo integrador que deve se inserir tudo que fazemos no mundo – também no Brasil. Incluindo aí todas as ações fundadas na antroposofia. Incluindo aí a nossa amada Euritmia!
No passo trimembrado por uma Euritmia brasileira
A pesquisa artística da Cia Terranova se propõe oferecer em seus espetáculos uma abordagem não trivial de dramaturgia e reflexão, buscando criar uma estética contemporânea eloquente. É nosso intento que o aspecto particular de cada obra criada expresse cenicamente a riqueza específica do tema escolhido, mas que seja também uma contribuição para uma cultura de pensamento geral integradora, que toque as mais diversas camadas da alma, os mais diversos públicos, procurando refletir na dramaturgia dos espetáculos o drama arquetípico da alma humana.
A recente temporada da Companhia, com um de seus espetáculos de repertório, Na Anatomia Oca dos Pássaros – ensaio lírico a Santos Dumont, que esteve em cartaz durante o mês de maio no Teatro Manás Laboratório, em São Paulo, veio confirmar a relevância do empenho incansável pelo fazer artístico. Veio também corroborar nosso questionamento, contínuo e inquietante, sobre uma euritmia que fale aos corações e às mentes dos nossos dias.
Neste caso, mergulhar por oito anos seguidos sempre mais a fundo neste espetáculo tem sido, mais que honrar a biografia e a obra de Santos Dumont, e revelar sua contribuição para toda a humanidade – tocando inclusive as tragédias que dela advieram e que o levaram ao final à depressão que deu fim à sua vida - é agradecer a Dumont por nos emprestar sua biografia para, ao mostrarmos ao mundo o genial inventor brasileiro, que transformou a história do século XX e deu origem a toda uma era de tecnologia e conquistas inestimáveis para toda a humanidade, estarmos também falando de todos nós, seres humanos, hoje. A abrangência deste espetáculo tem mostrado uma obra que, sendo brasileira, é antes e acima de tudo humana.
Como diretora da Companhia, minha gratidão flui para os colegas que permitiram essa façanha, em especial a Dino Bernardi, autor da concepção cênica e dramaturgia, a Marcelo S. Petraglia, compositor das peças musicais originais para o espetáculo, a Renate Nisch, parceira de uma Euritmia madura e expressiva, e a todos os que dividem a cena conosco – o ator Fernando Aveiro, os músicos Saulo Camargo (Percussão) e Luis Antonio Ramoska (fagote), e Thiago Capella na iluminação.
O profundo interesse das pessoas nas entrevistas concedidas durante a temporada e os depoimentos expressos após o espetáculo puderam testemunhar a eloquência e o alcance profundo da Euritmia na alma das pessoas, em sua união com o teatro. Muito pode ser visto na página de Instagram da Companhia, em @cia.terranova. Em especial, destaco duas matérias, escritas por eminentes críticos de teatro da APCA, a de Bob Sousa [click para ler], e a de José Cetra [click para ler].
O Santos Dumont da Cia Terranova pretende inserir o particular na corrente universal. Que nossa “ANATOMIA OCA” possa vir a ser invólucro, útero, receptáculo, gerando inspiração a uma Euritmia do Brasil para o mundo, do particular para a civilização, do hoje para o futuro. Um tributo à palavra, que sirva à construção do Homem.
Para concluir esta reflexão, compartilho outro excerto do Poema aos Homens do nosso tempo, de Hilda Hilst, que nos nutre como impulso anímico, norteador para todas as nossas criações.
Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças.
(...)
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu
Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu
Em gratidão a “todos esses amantes da palavra” (sic Hilda Hilst).
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¹ Seminário de cristologia realizado nos dias 4, 5 e 6, de junho de 2026, no Espaço Cultural Rudolf Steiner.
Marília Barreto | Formou-se em euritmia em 1986 pela Hogeschool Helikon em Haia/Holanda. De volta ao Brasil integrou por 13 anos o Grupo de Euritmia de São Paulo. Por 25 anos lecionou euritmia nas escolas Waldorf Rudolf Steiner e Micael, e conduziu diversos movimentos de Euritmia Jovem, culminando no projeto Teranova Pré-Graduação em 2007, que teve 4 edições. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2003), com a Dissertação Da palavra à poética do movimento, Marília dedica-se desde 2010 intensamente ao trabalho artístico, vindo a fundar sua Companhia em 2014, a Cia Terranova, com a qual tem circulado pelo Brasil e Europa com espetáculos que exploram a interface da euritmia e da música com o teatro.
Fotografias| Acervo da autora.