Tarsila do Amaral e a Alma Brasileira
A arte de tornar visível a cultura de um povo
por Roberta Henriette
A arte de tornar visível a cultura de um povo
por Roberta Henriette
Falar de Tarsila do Amaral é falar de um Brasil que não se encontra apenas nos livros de História, mas que pulsa nas cores, nas formas e nas contradições de sua própria existência. Mais do que uma artista modernista, Tarsila foi uma intérprete sensível daquilo que poderíamos chamar de “alma brasileira”. Um território invisível onde convivem ancestralidade, natureza, cultura popular e transformação social.
Nascida em 1886, em um Brasil que caminhava para o fim da escravidão e para a transição do Império para a República, Tarsila cresceu entre dois mundos: o refinamento europeu e a vivência concreta da terra brasileira. Nesse contexto, herdou valores humanistas e libertários de sua ancestralidade paterna. Seu pai, juiz, foi um defensor da abolição da escravidão; seu avô, apesar da riqueza, era simples e se misturava aos trabalhadores do campo.
Tarsila foi criada em ambiente de influência francesa, mas profundamente ligada à natureza e às histórias contadas pelas pessoas simples da fazenda onde nasceu. Sua infância já revelava um traço essencial de sua obra futura: a capacidade de unir opostos.
Essa dualidade acompanha toda a sua trajetória. Ao chegar à Europa, especialmente em Paris, Tarsila se depara com as vanguardas artísticas e com o pensamento moderno da época.
Em Paris, a artista tornou-se conhecida não apenas por sua pintura, mas também pelas feijoadas servidas a seus ilustres convidados. O feijão brasileiro era comprado em uma pequena venda próxima ao ateliê, mas a cachaça utilizada para preparar a caipirinha vinha diretamente do Brasil, atravessando a alfândega identificada como “produto de beleza”. Mesmo distante de sua terra natal, Tarsila mantinha viva sua ligação afetiva e cultural com o Brasil.
No entanto, ao invés de apenas reproduzir o olhar europeu, ela faz um movimento decisivo: retorna ao Brasil para olhar sua própria terra com novos olhos. Esse gesto não é apenas artístico; é profundamente biográfico e cultural.
É nesse contexto que surge sua fase Pau-Brasil, inspirada pelo Manifesto de Oswald de Andrade, onde a proposta era clara: produzir uma arte genuinamente brasileira, que não imitasse a Europa, mas que partisse da própria realidade nacional. Em suas telas, o Brasil aparece em cores vibrantes, formas simplificadas e cenas do cotidiano: morros, favelas, paisagens tropicais, personagens populares. Não se trata de um Brasil idealizado, mas de um Brasil que emerge através do olhar sensível e da imaginação estética de Tarsila, revelando sua percepção afetiva e humana.
Sérgio Milliet, crítico de arte, escritor e articulador cultural do modernismo brasileiro, escreveu: “Tarsila pinta cactos, quando o costume era pintar rosas”. A frase sintetiza a originalidade de sua obra e a coragem de voltar o olhar para um Brasil que, até então, raramente ocupava o centro da arte moderna. Muitos de seus contemporâneos a viam como uma mulher ousada, vanguardista e de personalidade marcante.
Esse movimento atinge seu ápice na fase antropofágica, simbolizada pela obra Abaporu (1928). A ideia da antropofagia cultural consiste em “devorar” influências externas para transformá-las em algo próprio, tornando-se uma metáfora poderosa da identidade brasileira. Tarsila não rejeita o mundo; ela o assimila e o recria. Nesse sentido, sua arte expressa uma inteligência cultural profunda: transformar influências externas em expressão viva da alma brasileira.
Mas a alma brasileira em Tarsila não é apenas cor, criatividade e inteligência cultural; ela também é consciência social. Após experiências na União Soviética e diante das transformações do Brasil urbano e industrial, sua obra passa a incorporar temas sociais, como na tela Operários (1933), onde diferentes rostos e etnias revelam a complexidade do povo brasileiro. Aqui, a artista amplia seu olhar: o Brasil não é apenas paisagem, mas também desigualdade, trabalho e realidade histórica.
Ao longo de sua vida, Tarsila atravessou perdas, rupturas e recomeços. Separações, dificuldades financeiras e redescobertas fazem parte de sua biografia, como de tantas vidas brasileiras. Ainda assim, manteve uma postura singular diante da existência, ou seja, a de quem transforma experiência em expressão. Sua trajetória biográfica revela que a vida ganha sentido quando é colocada a serviço da arte.
Segundo Jehoval Junior, professor, pesquisador e jornalista, em agosto de 1931, Tarsila do Amaral deixou a União Soviética e seguiu para Paris, cidade onde já havia vivido momentos de prestígio, luxo e reconhecimento artístico. No entanto, sua realidade naquele período era bastante diferente. Após vender seu apartamento na capital francesa e enfrentar dificuldades financeiras, decidiu procurar trabalho. Ao passar por uma construção, avistou uma placa com os dizeres “Precisa-se de pintor”, entrou no local e acabou sendo admitida para o serviço.
Dias depois, durante o processo de contratação, foi solicitado que apresentasse seus documentos. Ao reconhecer o nome de Tarsila, o arquiteto Adrien Clause ficou profundamente surpreso ao vê-la exercendo aquele tipo de trabalho. Sensibilizado com a situação, ofereceu seu apartamento para que ela o decorasse. Em retribuição, Tarsila pintou, em sépia, uma Baía da Guanabara na parede do imóvel. O trabalho lhe garantiu recursos suficientes para retornar ao Brasil.
Tive a oportunidade de entrevistar Maria Pérez Sola, gravadora e impressora artística espanhola radicada no Brasil, que trabalhou diretamente com Tarsila do Amaral nos últimos anos de vida da artista. Reconhecida por sua importante atuação no desenvolvimento das artes gráficas e da gravura em São Paulo, Maria chegou ao Brasil em 1968 e tornou-se uma das figuras relevantes na preservação, difusão e articulação do universo da gravura no Brasil.
Maria Pérez Sola não era apenas uma técnica de impressão. Tornou-se uma espécie de guardiã da memória gráfica de muitos artistas modernistas brasileiros. Foi nesse contexto que, em 1972, participou da realização de uma gravura produzida por Tarsila a convite do Clube da Gravura, destinada a um cartão comemorativo enviado como presente aos colecionadores associados ao Núcleo de Gravadores de São Paulo (NUGRASP).
Ao entrevistá-la, Maria contou que Tarsila lhe ensinou a perceber os “azuis” e os “rosas caipiras” do Brasil, solicitando que ela realizasse uma viagem de trem pelos arredores de São Paulo. Segundo seu relato, Tarsila pediu que observasse atentamente as casas dos colonos e das pessoas simples das fazendas, pintadas com cal nessas tonalidades, para que pudesse reproduzi-las no cartão. Maria contou que fez a viagem e pôde compreender o que Tarsila queria dizer. Segundo seu relato, a experiência também lhe permitiu perceber nuances culturais que distinguiam o Brasil do restante da América Latina.
Manacá (1927)
Tarsila do Amaral
[óleo sobre tela | 76cm X 63,5cm]
Esse episódio revela não apenas a sensibilidade estética de Tarsila do Amaral, mas também sua capacidade singular de perceber poesia, cor e a identidade cultural presente no cotidiano brasileiro, ensinando Maria a reconhecer aquilo que poderíamos chamar de alma brasileira.
É justamente nesse ponto que sua obra dialoga com a dimensão biográfica do ser humano. Tarsila não apenas pintou o Brasil; ela viveu o Brasil em si mesma. Sua trajetória revela um movimento de individuação cultural: sair da imitação, atravessar crises, reencontrar as próprias raízes e, a partir disso, criar algo único.
Por isso, ao olharmos para Tarsila do Amaral hoje, não vemos apenas uma artista consagrada do modernismo. Vemos uma mulher que encarnou, em sua vida e em sua obra, o processo de construção da identidade brasileira. Uma identidade feita de contrastes, de mistura, de coragem estética e de profunda ligação com a terra e com o humano.
Talvez seja por isso que suas cores ainda nos falam. Porque nelas não está apenas a arte, está o Brasil que fomos, que somos e que ainda estamos nos tornando. Uma eterna construção daquilo que poderíamos chamar de alma brasileira.
Referência Bibliográfica:
Junior, J. Tarsila Eterna. 1. ed. Capivari: EME, 2008.
Roberta Henriette | Aconselhadora Biográfica, graduanda em Psicologia e fundadora da Educação, Cultura e Integridade. Após trajetória executiva em Desenvolvimento Humano, Comunicação e Compliance, dedica-se ao estudo da jornada humana em seu contexto cultural e ancestral.
Manacá | As imagens utilizadas nessa matéria da revista ECOS são reproduções digitais da pintura original de Tarsila do Amaral. O arquivo digital foi retirado do site WikiArt que informa o seguinte sobre o direito de uso público dessa imagem: Justificativa para o uso justo – Trata-se de uma obra de arte de importância histórica. A imagem está sendo usada apenas para fins informativos e educacionais. A imagem está facilmente disponível na internet. A imagem é uma cópia de baixa resolução da obra de arte original e não é adequada para uso comercial.