O Portal da Iniciação
por Luis Augusto Comassetto
por Luis Augusto Comassetto
Uma vivência de autoconhecimento a partir da
experimentação artística com O Portal da Iniciação
A experiência que a atmosfera desta época do ano pode evocar em nossa alma, quando estamos atentos aos ritmos da natureza, convida a um estado de escuta e recolhimento. Em contraste com o calor do verão e a exaltação do carnaval, o período outonal, que antecede a semana da paixão, tendo sua culminação na Páscoa, promove a contemplação interior. Em tempos passados, quando a técnica não se desenvolvera a ponto de se tornar tão prevalente, quando ainda era possível viver em íntima comunhão com a natureza, contração e expansão expressas nas estações do ano, no dia e na noite, conduziam mais facilmente a alma a vivências interiores de pulso e carregavam, sustentando e pontuando, o ritmo do tempo de maneira viva.
Hoje, silêncio e solitude não são, portanto, vivências gratuitas. Ainda que a alma anseie por elas, seu sussurro é abafado pelo grito da técnica, pelas notícias de um mundo convulso, pela crescente busca por produtividade em meio ao excesso de metas autoimpostas, pela dimensão material que cobra seu preço.
Trilhar um caminho de desenvolvimento interior é exigente, e parte de um marco que se afirma sobre a observação de que a natureza, mãe e provedora, não pode apresentar resposta à questão fundamental que a transcende: de onde provém a essência do humano? Apesar da grandeza, majestade, beleza e perfeição que os sentidos nos apresentam na vivência com a natureza, a partir de um ponto, o mundo exterior não responde mais à busca interior; antes, acentua a pergunta. A força ígnea da vontade, inicialmente bruta e indomável, precisa ser conduzida a forjar o próprio caminho que então se torna esteio e solo firme para a trilha do vir a ser.
Vivências e desafios de um caminho de iniciação moderno, em meio aos dramas da vida cotidiana, são apresentados em cenas no de O Portal da Iniciação, Primeiro Drama de Mistério de Rudolf Steiner, escrito e encenado pela primeira vez em 1910. É impressionante acompanhar a trama que se desenvolve com um grupo de pessoas vinculadas por laços cármicos em torno de perguntas existenciais prementes. No centro dessa tecelagem está a figura de João Tomasius, o artista que se encontra diante de um bloqueio criativo que impõe severas e profundas questões à sua alma. No decorrer da peça a trama cármica vai sendo tecida diante dos espectadores e a situação particular em que o personagem se encontra vai ganhando contornos nítidos e consistentes.
A exemplo da seguinte citação, Rudolf Steiner fala em diversas palestras da época sobre o Drama:
“Por um lado, a peça visava mostrar como a vida da antroposofia e seus impulsos podem fluir para a arte, para a forma artística. Além disso, devemos estar cientes de que este Mistério Rosa-cruz contém muitos de nossos ensinamentos científico-espirituais que talvez só sejam discernidos em anos futuros (...) se as pessoas se esforçassem nos próximos anos para trabalhar com a peça, eu não precisaria dar mais palestras por um bom tempo”. (GA 125, palestra de 17.09.1910)
Inspirados pela riqueza espiritual contida nos Dramas de Mistério, formamos um grupo no início de 2025, com o propósito de trabalhar seu conteúdo. Cientes de que nós, envolvidos com antroposofia também nos encontramos na situação de confrontar-nos, cada um a seu tempo, com a pergunta pelo autoconhecimento, reconhecemos na peça elementos de ajuda nesse caminho, podendo lançar luz também para os laços que nos uniram para uma tarefa comum. As palavras de Benedictus, guia espiritual da comunidade retratada no drama, remetem também à nossa vivência ao nos ligarmos de forma íntima com a antroposofia:
“Forma-se neste círculo
uma trama, com os fios
que o carma tece
no vir a ser do mundo.”
(O Portal da Iniciação, cena 3)
Um caminho
Logo no início do processo de intensa dedicação com a peça, coube a mim o papel de João Tomasius. Inicialmente, me pareceu uma tarefa que superava minha capacidade. Como lidar com o tamanho que isso tem e como acolher esse trabalho na minha vida? Quando a peça foi montada pela primeira vez no Brasil, em 1998, tive a oportunidade de assistir à apresentação. Eu tinha então 21 anos e o impacto que o espetáculo causou em mim ressoou por muito tempo. Talvez isso tenha contribuído para que agora assumisse a tarefa. Com pouca experiência cênica – tal como a maioria dos colegas – senti o peso do desafio. Para além da quantidade de falas, a presença constante no palco, interação e interpretação eram preocupações bastante reais. O grupo, no entanto, bravamente se uniu em torno da meta e os desafios foram compartilhados em uma intensa convivência artística de construção coletiva e respeito mútuo, com a direção competente e proativa da Suzana e do Matthias Murbach.
Tínhamos uma meta ousada! Apresentar os sete primeiros quadros como uma pré-estreia no dia 15 de novembro de 2025. Esse foi o resultado de um primeiro esforço do grupo ao longo do ano, encenado no Espaço Cultural Rudolf Steiner, em São Paulo capital.
Tudo que acontece no palco, em O Portal da Iniciação, é vivência interior, anímica, do personagem João Tomasius. Um dos objetivos do treinamento esotérico, segundo Rudolf Steiner, pode ser descrito como um fortalecimento anímico em direção da autossuficiência – que só pode ser conquistada através da solidão da alma. O que importa então, é a força que vem da solidão, mas essa meta só pode ser alcançada, a partir de um ponto, pela imersão no ser do outro. João Tomasius busca primeiro a solidão, quando o convívio social se torna perturbador para ele. Então, a partir de sua fragilidade e do drama individual que vive, aquilo que as pessoas revelam nas conversas, o atinge como se ele mesmo o sentisse. Primeiro ele mergulha na alma do cientista Strader e do professor Capésius, que revelam, através de seus discursos, vivências biográficas e perguntas existenciais autenticas. Mais tarde, em suas experiências meditativas, a partir das palavras que conduzem ao autoconhecimento: “Ó Ser humano, conhece-te a ti mesmo!”, Tomasius submerge em interiorização, encontrando neste caminho, a experiência dramática da cisão da personalidade. Rudolf Steiner diz que “assim que a cortina se levanta, temos de confrontar essas palavras, que soariam mais altas para qualquer pessoa através do autoconhecimento do que ousaríamos produzir no palco.” (GA 125, palestra de 17.09.1910). João Tomasius penetra então os ritmos cósmicos ao perder o centro em si mesmo, identifica-se com os fenômenos naturais. O próprio corpo ele vê como um ser estranho a ele! Tornar-se livre é exigente e ele se percebe ainda acorrentado à sua natureza inferior, sujeita a apetites e paixões que definem suas ações. Em meditação, lhe aparece então o ser da amiga, mais desenvolvida espiritualmente, como um farol a lhe indicar:
“Tens de passar por todo o medo
que da ilusão pode surgir, antes
que se revele para ti
a essência da verdade”.
(O Portal da Iniciação, cena 2)
O que se segue é um teste cênico ainda maior, pois colocar no palco vivências extremas de encontro com seres espirituais, como o Espírito dos Elementos, Lúcifer e Árimã, é desafiador. A linguagem, a fala dos seres adversos, precisa se apresentar como um retrato fiel desses seres. A presença da Euritmia ao buscar revelar a essência das palavras e seres, e a atuação das euritmistas a partir da terceira cena é fundamental para a riqueza artística da peça.
“No drama um certo elemento artístico foi criado, no qual tudo é espiritualmente realista. O realismo e o espiritual não se contradizem. A alma de João tece uma cena realista a partir da anterior”. (GA 125, palestra de 17.09.1910)
Em meio aos desafios de João Tomasius, estão entrelaçados os destinos do grupo de pessoas a ele ligado. À medida que a trama cresce, se desenrola diante do olhar do público o tecido social com toda a sua complexidade cármica. A peça tem o subtítulo “um mistério Rosacruz”. Nesse sentido a edificação de uma cúpula social vigora como motivo subjacente ao drama individual do personagem principal. Ele só avança no conhecimento sustentado pelas relações criadas em vidas anteriores que se revelam nessa existência; em contrapartida, dá condições para o autodesenvolvimento daqueles aos quais está ligado. Ao longo da peça vai ficando claro que o que acontece no palco é a revelação do início de um novo caminho iniciático que se abre para a humanidade, e de como essa realidade se dá para aquele determinado grupo de pessoas. A busca conduz ao ideal da permeação entre luz e calor sendo percebidas pelo espírito, e vivenciadas na alma. Também pode-se reconhecer como sendo o caminho que leva à consciência da união entre boas obras humanas e elevadas metas espirituais.
Rudolf Steiner aponta, na mesma palestra citada acima, que se pode falar sobre as etapas do desenvolvimento superior com mais acuidade, quando se descreve o caminho particular do personagem João Tomasius, do que ao retratar as mesmas etapas de maneira genérica. Também afirmou que as cenas do Drama, surgiam uma após a outra, como que a partir da necessidade real e artística do entrelaçamento cármico entre os personagens, surpreendendo mesmo a ele, autor da peça.
Há um paralelo importante entre as cenas 2 e 9. Depois de passar na cena 2 pelo drama descrito pelo confronto com sua própria vontade bruta, não se reconhecendo como ser humano; na cena 9 há a inversão dessas vivências e no lugar da exortação: “Ó, Ser humano, conhece-te a ti mesmo!”, ressoa do mundo e do íntimo: “Ó, Ser humano, vivencia-te!”. O caminho anterior, que o conduziu à vivência da escuridão e do abismo, agora se abre em um panorama luminoso, onde a força da palavra sustenta o caminho em direção ao Eu superior. Até mesmo a vivência do kamaloka, que antes o fez sentir o sofrimento causado por ele a uma pessoa já falecida, muda agora em possibilidade de redenção. Do futuro, a partir da palavra primordial, se abre um horizonte promissor e a partir do esforço interior, João ganha a certeza do Ser.
Apesar da conquista de uma certa autoconfiança em seu caminho meditativo, o personagem se vê confrontado ainda com a falta de compreensão diante do que vivencia como espírito do amor e espírito da sabedoria. Como unir as duas realidades em si? Assim, depois mesmo de conquistar um esteio em suas vivências meditativas e quando parece que a autoconfiança se estabelece, novamente se encontra diante da tentação luciférica - que o exorta a conservar a vivência do encontro consigo mesmo, e se manter distante da sina humana – e com a tentação arimânica - que o alerta a se sustentar sobre o solo firme e a luz da Terra, não desperdiçando a força do Espírito na luminosidade das alturas - Enfim, Tomasius ainda não está livre de ilusão e precisa seguir em sua busca. A cena final é belíssima e se passa no templo do Sol, como um panorama que apresenta uma certa autonomia e consciência adquirida pelos personagens. Os passos de cada um em direção à meta são condição para o avanço dos outros, como resultado de um caminho conjunto ao longo de encontros cármicos.
O Portal da Iniciação é um fascinante material de estudo. Rudolf Steiner apresenta ali, de forma germinal, um vislumbre do que viriam a ser as impressionantes conquistas e revelações de sua pesquisa espiritual no ano de 1924, após o Congresso de Natal: em especial, as palestras sobre o carma que apresentam o destino de individualidades no vir a ser espiritual do mundo. Como as correntes espirituais que fluem na humanidade desde a antiguidade e se revelam ao longo dos séculos, moldando o destino humano, têm uma certa culminação com a escola suprassensível de Micael nos séculos XV a XVIII e com a origem celeste do ser Antroposofia no culto suprassensível do início do século XIX.
Rudolf Steiner escreveu O Portal da Iniciação em 1910, depois de 21 anos convivendo com as imagens do conto da Serpente Verde e a Bela Liria de J.W. von Goethe. É possível reconhecer a metamorfose de um mesmo tema nas duas obras. Mais tarde Rudolf Steiner revelou que o conto de Goethe apresenta sob forma de imagens aquele culto suprassensível, origem celeste dos impulsos que viriam a forjar a antroposofia no plano físico.
Seguiram-se ao primeiro, mais três Dramas de Mistério, desdobrando as relações cármicas dos personagens da primeira peça, através de suas vivências em encarnações passadas: A provação da alma, de 1911; O Guardião do Limiar, de 1912 e O despertar das almas, de 1913. Em 20 de setembro de 1913 é lançada a pedra fundamental do 1° Goetheanum, em Dornach. Seu vínculo com os Dramas de Mistério é crucial. O próprio edifício era conhecido como Johannesbau, referência direta a João Tomasius, e o palco também foi desenhado e construído para a encenação das peças. Sabemos que a construção abrangia ainda aspectos mais amplos, mas podemos reconhecer a obra também como desdobramento direto do aparecimento dos dramas na vida cultural artística da humanidade no início do século XX.
O impulso artístico inaugurado com os Dramas de Mistério foi a aurora do que mais tarde se abriu para a humanidade como a fundação dos Novos Mistérios no Congresso de Natal e a união na Terra entre a corrente Rosa-cruz e a corrente de Micael.
Referências Bibliográficas:
Steiner, R. O portal da iniciação. Primeiro drama de mistério. GA 14. 3. ed. Trad. Matthias Murbach e Ruth Salles. São Paulo: Antroposófica, 2026.
Steiner, R. A provação da alma. Segundo drama de mistério. GA 14. Trad. Matthias Murbach e Marília Risi. São Paulo: Antroposófica, no prelo.
Steiner, R. O guardião do limiar. Terceiro drama de mistério. GA 14. São Paulo: Antroposófica, no prelo.
Steiner, R. O despertar das almas. GA 14.Quarto drama de mistério. GA 14. Trad. Matthias Murbach. São Paulo: Antroposófica, no prelo.
Steiner, R. O calendário da alma. GA 40 (separata). Trad. João Torunsky, Claudia McKeen e Rogério Y. Santos. São Paulo: Antroposófica, 2026.
Steiner, R. Observações esotéricas de relações cármicas. vol. 1-6. GA 235 a 240. Trad. Sonia Setzer. São Paulo: Antroposófica, 2023 e 2024.
Luis Augusto Comassetto | Estudou escultura na Plastikschule, em Dornach de 2009 a 2012. Estudou design de flowforms, sob coordenação de Paul Van Dijk, de 2019 a 2022. Desenvolve trabalho como ceramista e escultor e atua em cursos antroposóficos como artista plástico e palestrante.
Fotografias| arquivo do autor.
Grupo Dramas de Mistério Brasil (saiba +)
Estreia de O Portal da Iniciação pelo Grupo Dramas de Mistério Brasil.
🗓️ Sábado, 28 de março de 2026
🕰️ 15h30 às 21h
📍 Teatro Gino Carbonari - Botucatu (SP)
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Nova edição!
Antroposófica Editora
GA 14 (separata)
3ª edição 2026
242 páginas
Tradução: Matthias Murbach e Ruth Salles