Verão no Hemisfério Sul
por Isabel C. F. Schievenin
por Isabel C. F. Schievenin
É verão aqui. O sol intenso mostra as cores da natureza que é tão intensa e vibrante, mas em poucas horas nuvens pesadas, as cúmulonimbus se impõem poderosamente, o céu se fecha à luz e raios, trovões e muita água desce do céu. Passada a tempestade, contrastando com o peso e o cinza das nuvens, os arco-íris aparecem suavemente coloridos e leves. Quase dramaticamente os olhares são dirigidos para o céu aguardando suas ações que variam da chuva que refresca à enchente que muda destinos. O poder de um clima assim é incontestável.
A vida vegetal se expande à exposição ao ar luminoso e os insetos se multiplicam sem constrangimento. Tanta vitalidade presente na atmosfera úmida evoca a imagem da natureza que, em expansão, almeja alcançar as alturas; a fauna torna-se fleumática nas horas mais quentes do dia. Também os seres humanos vivem as festas mais expansivas nesta estação do ano. Enquanto o hemisfério norte se retrai em intenso inverno, o que se vive aqui é a expansão do verão.
Natura, de Adriano Raphaelli
As festividades coletivas a céu aberto levam à euforia e à expectativa do ano que se inicia, mas também podem levar à procrastinação de decisões individuais conscientes. Neste período não são as forças terrestres, mas as forças refletidas do cosmo que se revelam à Terra que, em expansão se une às forças do sol e das estrelas. Porém há riscos e desafios a cada fase do ciclo anual, pois Lúcifer atuando na natureza exterior à alma humana, trabalha com as forças do crescimento e floração do verão, suscitando nos seres humanos a ilusão de que as leis naturais nada têm a ver com o mundo espiritual; e assim se corre o risco de despojar o mundo da sabedoria que leva à compreensão dos princípios espirituais existentes em tudo que rodeia e compõe o ser humano.
Já as forças de Árimã agem no interior do ser humano provocando ilusões a respeito do conhecimento da natureza, promovendo a inclinação para o materialismo. Árimã anseia impedir que os seres humanos reconheçam o amor no mundo e Lúcifer almeja impedir o reconhecimento da sabedoria no mundo.
A continuidade da Terra e sua missão para a existência de mundos futuros, serão possíveis quando se reconhecer a moralidade e não só a mecânica do existir das leis naturais, no exercício da busca consciente da sabedoria arquetípica.
Nos tempos antigos os seres humanos festejando o verão ansiavam pela união ao macrocosmo, e isto se dava em períodos anteriores ao Mistério do Gólgota, antes dos seres humanos e antes de a própria Terra contar com seu Eu, mas os tempos são outros e precisam se cumprir. Atualmente é preciso, a partir do desenvolvimento da alma da consciência, reconhecer a sabedoria, a Divina Sofia nos processos naturais e em suas leis. Com tal atitude pode-se abarcar o macrocosmo sem perder a si próprio, possibilitando viver a passagem do verão ao outono e depois ao inverno.
Sendo agora o Cristo o Espírito da Terra, durante o verão Ele acompanha a alma de Terra em sua expansão ao macrocosmo e aqueles que estão prontos para reconhecê-lo, não se dissiparão nas ilusões e devaneios de verão e terão acesso ao mundo espiritual sem se perder pelo caminho. Rumando ao outono a alma da Terra principia sua contração e o Cristo traz consigo as vivências do sol e das estrelas que futuramente estarão presentes em todas as almas humanas, pois a cada ciclo, mais pessoas deverão estar dispostas a não renunciar a suas consciências e reconhecerão o amor e a sabedoria em cada gesto da natureza durante o verão.
Referências Bibliográficas:
STEINER, R. O Ciclo Anual como Processo de Respiração da Terra e as Quatro grandes Festas do Ano, GA 223; tradução de Marco Antônio Climaco. São Paulo: Antroposófica, 2024.
PROKOFIEFF, S.O. El Ciclo Anual como Camino de Iniciación hacia la Vivencia del Ser de Cristo, tomo III; tradução Osacar Belingueres. Buenos Aires: Editorial Dorothea, 2011.
Isabel C. F. Schievenin | Graduada em Farmácia e Bioquímica pela USP São Paulo, atuante em formações de professores Waldorf na área de ciências; membro fundador e coordenador do Grupo de Ciências Waldorf do Brasil e dirigente da Seção de Ciências Naturais juntamente com dois outros colegas.
Adriano Raphaelli | Artista plastico e terapeuta artistico. Atuação em consultório e docente em artes em formações de pedagogia Waldorf e terapia artística. Coordenador da Toré - Escola de Formação de Terapia Artística de SP.
Natura | acrilica/folha de prata | 20cm X 20cm
Contato: (11) 91358-2525