O ritmo no processo social
por Mariangela Paiva
por Mariangela Paiva
Na música, a forma como os silêncios e os diferentes sons se organizam no tempo revela o ritmo. É a alternância desses elementos, desses silêncios e sons em períodos determinados que cria padrões que envolvem expansão e contração. A sucessão e a frequência desses padrões revelam melodias e harmonias.
Há tempos orgânicos que se inscrevem nos tempos cósmicos e se cultivam nas mais variadas manifestações culturais e sociais, criando períodos alternados mais ou menos regulares. As festas cristãs anuais são exemplos disso.
Também a alma humana se movimenta dentro de ritmos que se expressam interiormente – criando dinâmicas entre o inspirar e o expirar, entre sístole e diástole, entre dormir e estar acordado – e exteriormente – no relacionamento com outros indivíduos, com quem fala e de quem ouve, a quem dá e de quem recebe coisas, sentimentos e sensações, pensamentos. Nesse movimento de alternância rítmica constante a alma processa o que percebeu no ambiente e na outra pessoa, se apropria e digere esses elementos que lhe chegam do mundo exterior, para, então, devolver ao ambiente uma resposta que é, ao mesmo tempo, o efeito causado pelo que foi processado interiormente e uma causa que será motriz para novos impulsos para si e para os outros. Essa devolutiva será uma intervenção ativa e livre desse eu no ambiente externo.
A lemniscata expressa esse movimento contínuo entre dentro e fora, que passa, a cada volta, por um cruzamento interior, onde são geradas novas perguntas e novas respostas.
No trabalho pedagógico-social orientado pela Antroposofia temos no ritmo um aliado importante, pois essa alternância que ele proporciona através de diferentes estados de atenção proporciona um conforto à alma, um espaço onde o indivíduo consegue respirar e se equilibrar dinamicamente. Dessa forma, o profissional de pedagogia social que trabalha na facilitação de processos sociais procura organizar as atividades – de uma aula, de uma reunião, de um curso, seminário ou mesmo de um processo de diálogo – de forma a permitir que aconteça, na própria programação dos períodos de trabalho, esse movimento anímico que se alterna entre a expansão e a contração.
Numa palestra, por exemplo, há um momento inicial de escuta no qual o indivíduo participante fica em silêncio, ouvindo a contribuição de outro indivíduo. Ali é importante que ele esteja aberto para receber as informações e ideias que lhe chegam. Ele precisa, na verdade, aprender a ouvir, a criar um espaço interno onde consiga suspender aquela voz interior que, a cada frase ouvida, se prepara para argumentar, para negar ou confirmar. É nesse silêncio interior que poderão então surgir novas compreensões, talvez novas perguntas a serem feitas, e novas inspirações para o atuar.
Por isso, o facilitador de processos sociais procura criar, no próprio programa do dia, um espaço de ‘digestão individual’, onde o participante se volta para o seu próprio interior, buscando se conscientizar do que percebeu através daquela palestra, do que o tocou e das perguntas que nele surgiram; é um espaço de reflexão sobre os próprios entendimentos e questões.
Após isso, também se pode promover uma conversa em pequenos grupos para que o indivíduo, então, se abra novamente para compartilhar as suas impressões, descobertas e dúvidas com os demais participantes, bem como ouvir as deles.
Finalmente, se pode levar todas essas descobertas e considerações para o grupo maior de participantes, de forma a que o palestrante possa comentar o que surgiu, complementando, esclarecendo e aprofundando o conteúdo trazido inicialmente.
Há nesse processo, portanto, um movimento inicial de interiorização – envolvendo um diálogo de cada um consigo mesmo – seguido de um movimento de exteriorização – de diálogo com o outro, o que enriquece a compreensão e as possibilidades de atuação do indivíduo no mundo. Cada pessoa passa, assim, a enxergar um horizonte maior e mais complexo do que aquele com o qual começou e que, muitas vezes, estava restrito apenas às impressões do âmbito individual.
Dessa forma, quando o trabalho envolve a construção de compreensões, de posicionamentos coletivos, é muito interessante começar com uma reflexão individual, passar para um debate em pequenos grupos e chegar, finalmente, numa plenária que envolva ao grupo todo. Quando isso acontece há um crescendo em que vão se levantando sugestões, vão se construindo consensos, vão se dirimindo dúvidas e oposições através de um esclarecimento progressivo.
Essa dinâmica pode ser utilizada em todos os âmbitos do relacionamento social, seja entre indivíduos que refletem sobre suas questões pessoais e biográficas, seja em relação a situações vividas por grupos e organizações, e mesmo em relação a uma inserção no âmbito macrossocial como é a comunidade em que se vive e trabalha.
Em atividades que envolvam mais de um dia, se pode trabalhar o ritmo de outra forma: pode-se procurar manter ‘faixas’ de atividades que se repetem em todos os dias nos mesmos horários. Isso tem um efeito ‘relaxante’ nos participantes, que vão, a cada dia, se acostumando a uma mesma sequência de atividades.
Caminhante, de Adriano Raphaelli
Frequentemente os facilitadores de processos preparam roteiros de perguntas que orientam os trabalhos, tanto individuais quanto em grupos. Estes roteiros pretendem ajudar o participante a olhar para dentro e/ou para fora de si, aprofundando e ampliando de maneira intencional sua conexão com a dimensão que está sendo trabalhada. Nesse sentido, busca-se ampliar a conexão do indivíduo com a realidade exterior e também identificar o movimento que ele pode e quer realizar. A ideia aqui é apoiar essa individualidade a definir de que forma ela quer atuar sobre o que viu e compreendeu, pois, consciência ampliada precisa envolver também a formulação de possibilidades de intervenção, considerando com clareza os critérios que devem orientar as decisões a serem tomadas e as possíveis consequências de implementar cada alternativa, preparando uma ação ponderada e efetiva.
Dessa forma o ritmo se presta a que possamos fortalecer as forças sociais no indivíduo, a saber:
o interesse, através de um pensar que se volta para fora, compreende e busca formas de como ajudar;
o reconhecimento, através de um sentir que consegue perceber o cerne de cada situação; e
a responsabilidade, através de uma ação que se baseia na compreensão do que é necessário fazer para dar encaminhamento àquilo que precisa acontecer.
Mariangela Paiva | Sou bacharel em História e trabalhei com o tema da Memória do Ensino Vocacional durante mestrado em História Social. Meu caminho na consultoria de processos começou nos anos 80 no âmbito de órgãos da esfera pública através da FUNDAP – Fundação do Desenvolvimento Administrativo e, mais tarde, na Secretaria de Estado da Saúde. Tomei contato com a ideia da Trimembração Social e com a metodologia de desenvolvimento da Pedagogia Social de base antroposófica quando fui membro de um grupo de pais e professores do Colégio Micael de SP para propor uma nova estrutura de gestão para a escola. Isso me motivou a trilhar um novo caminho de formação e aprendizagem. Participei então do Seminário de Pedagogia Social e me tornei trainée do Instituto Christóphorus de Desenvolvimento Humano e Social. Ajudei a fundar a Associação de Pedagogia Social em 1993, fui membro da sua 1ª diretoria e estive por cerca de 20 anos no seu Círculo de Seminários e nas equipes de coordenadores. A partir de 1999 passei a integrar a equipe de consultores do Instituto Fonte, onde colaborei com processos de facilitação e desenvolvimento de grupos, formação de jovens consultores e avaliação de projetos. Fui membro da sua Diretoria entre 2015 e 2018. Fui professora da PUC-SP (disciplina de Conflitos, Negociação e Cooperação no curso de especialização em gestão do 3º setor) e do SENAC-SP (disciplina de Avaliação de Projetos Sociais no curso de especialização em gestão de organizações sociais no território). Atualmente sou consultora e também me dedico ao movimento pela busca de melhorias no bairro onde moro, procurando estar atenta para agir de forma amorosa com o outro com quem me encontro. Sou membro da Sociedade Antroposófica, da Primeira Classe da Escola Superior Livre para Ciência do Espírito e da Seção de Ciências Sociais.
Adriano Raphaelli | Artista plastico e terapeuta artistico. Atuação em consultório e docente em artes em formações de pedagogia Waldorf e terapia artística. Coordenador da Toré - Escola de Formação de Terapia Artística de SP.
Caminhante | acrilica/folha de ouro | 20cm x 20cm
Contato: (11) 91358-2525