Homenagem a Guimarães Rosa
por Claudio Bertalot
por Claudio Bertalot
João Guimarães Rosa é uma dessas figuras, expoentes da cultura universal, que nascem no lugar certo, no tempo certo, a quem se deu o nome certo e que chegam sabendo a que vieram.
“Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito...”
Com essas palavras Guimarães abre o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, três dias antes de sua morte.
Alguns anos antes ele havia dito:
“A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica.”
O temor de que ele pudesse não resistir à emoção dessa ‘bênção eclesiástica’, o casamento com a sua amante, a língua brasileira, o levou a adiar essa posse por quatro anos. As palavras que abrem e fecham essa nossa homenagem provém desse discurso. Elas são como uma fórmula de sua concepção de ser humano destilada de uma vida inteiramente dedicada à palavra. À palavra tal como ela brota, segundo o próprio Rosa, “das entranhas da alma” para, ainda segundo ele, “rodear e devassar... o mistério cósmico, esta coisa movente, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada realidade, que é a gente mesma, o mundo, a vida.”
Se Rosa tinha uma estrela, essa era a estrela Sirius, da constelação do Cão Maior, por sua proximidade com a Terra, a mais brilhante. Dela certamente derivou o nome do jagunço violeiro, ou a voz sem rosto, que com sua enigmática canção, numa madrugada dobrada, levou Riobaldo, personagem central de Grande Sertão: veredas, a assumir o seu destino de jagunço, batizando mais tarde o seu cavalo de batalha de Siruiz. Já mais para o fim de sua vida Riobaldo a ela se refere assim:
“A lembrança dela me fantasiou, fraseou – só face dum momento – feito entre madrugar e amanhecer. Uma profundidade nebulosa no indagar a vida e o pausado método de existir.”
Essa enigmática canção do Siruiz, com suas proféticas palavras, na velha canção que a mãe de Antônio Cândido cantava quando ele era criança e que acolheu perfeitamente os versos de Guimarães Rosa, tornou-se a fonte de inspiração para o conteúdo e a estrutura da nossa homenagem, situando-se no centro da apresentação.
Tal como a linguagem de Guimarães, também a linguagem da Euritmia surgiu de um verdadeiro namoro com a Língua. A “Ossatura das consoantes e a carne macia das vogais”, como disse Rosa certa vez, para ele, como para a Euritmia, são como que o corpo vivo da Língua. Todos os nomes de lugares e personagens em Guimarães Rosa são escolhidos com muito zelo. E a Euritmia se alegra em desvendar seus segredos.
Siruiz. Na nossa língua o fonema S quando aparece no final das palavras, demonstra o seu poder pluralizador, universalizante. Árvore, transforma-se em árvores. Desfazem-se os contornos claros da árvore singular, e somos levados a uma imagem-névoa que encerra o universal de onde provém todas as árvores. O fonema I, por sua vez, no final dos verbos, põe em evidência o próprio indivíduo da ação: o fazer, torna-se - eu fiz! O R, no entanto, transforma a estática CASA no turbulento CASAR, tudo vira verbo, ação, na sua presença, já o U sempre inspira um leve medo, pavor diante do desconhecido.
Siruiz, da vida universal, S, chega uma individualidade, I, que adentra o desconhecido, ramerrão da vida, RU, e ao retornar, individuado, I, transformado leva consigo, também, forças transformadoras para a sua origem, o S sibilante, tornou-se um Z, mais sonoro.
O ramerrão da vida: “toda noite é rio abaixo, todo dia é escuridão”, a claridade do dia pode ser enganosa, não se enxerga o próprio caminho, é da noite que brotam os insights. Liberdade e destino, esse aparente antagonismo, em Guimarães Rosa, perdem o seu caráter incompatível, tonam-se faces de um mesmo ato.
Fizemos, pois, um caminho do Rosa:
Três dias antes de sua morte, passando pelo Guimarães no ramerrão de seu Grande Sertão: veredas, da vida em suas polaridades, “o que ela quer da gente é coragem “, ao jovem João, apenas formado em medicina, assíduo leitor da cultura universal e já conhecedor de muitas línguas, na sua tão madura e completa concepção de liberdade: “pés livres, mãos dadas, e olhos bem abertos” de seu poema Bibliocausto, para na canção do Siruiz, com Riobaldo ainda adolescente, viver em sentimento a “profundidade nebulosa no seu indagar a vida e o pausado método de existir.” Daí para frente tudo é um espelhamento em transformação: “teu pensamento, tua fé e o teu desejo, criando à tua escolha o teu destino.” Do poema Iniciação, também do jovem Guimarães.
E a última música da homenagem é uma criação sobre os versos que Riobaldo fez ao raiar do dia, num momento de solidão, diante de um grande buritizal, no auge de sua vida de jagunço, depois de lembrar a canção do Siruiz. São três estrofes de quatro versos cada, 12 no total, e cada verso com sete sílabas.
E, em consideração à sugestão de releitura que a língua viva de Rosa nos faz, revejamos o já visto.
“Trouxe tanto este dinheiro
o quanto, no meu surrão,
p’ra comprar o fim do mundo
no meio do Chapadão.
Urucuia – rio bravo
cantando à minha feição:
é o dizer das claras águas
que turvam na perdição.
Vida é sorte perigosa
passada na obrigação:
toda noite é rio-abaixo,
todo dia é escuridão...”
Criação do Riobaldo, Grande Sertão: veredas
Referência Bibliográfica:
Rosa, G. Grande sertão: veredas. 22. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Claudio Bertalot | Mestre em Artes pela Alanus University (Alemanha) e formado em Euritmia. Atua no Brasil desde 1988 como euritmista, coreógrafo, palestrante e professor de Euritmia e antroposofia. Cofundador do Grupo de Euritmia de São Paulo e docente da Formação em Euritmia no Brasil.
Fotografias desse artigo | Registro do espetáculo de Euritmia Homenagem a Guimarães Rosa, apresentado em junho de 2026, no Espaço Culturak Rudolf Steiner | Acervo fotográfico da Sociedade Antroposófica no Brasil.