Centros de Mistérios de Micael
Um relato de viagem, setembro 2025
por Estefanelli Becker
Um relato de viagem, setembro 2025
por Estefanelli Becker
Conforme a tradição, sugerida pela dra. Gudrun, a turma do aconselhamento biográfico ao final da formação escolhe um tema a ser vivenciado numa viagem. A missão é, estando nestes centros espirituais de mistérios, poder desenvolver individualmente uma forma de iniciação.
Tive a honra de receber e agradeço o convite para a jornada entre mares e céus azuis profundos, ora ultramar, ora cobalto. Com a coragem de Micael, que segundo meu olhar significa cultivar a coragem consciente, transformar o pensar puramente intelectual em ações cheias de amor e agir com o coração (cor-agem) para vencer os próprios medos de levar o grupo de mulheres fortes e cheias de expectativas.
Começamos nos conhecendo em encontros de pintura em aquarela e com a palavra criadora sobre estes centros, que distam entre si 1.000km, e formam a linha de Micael, nome da tradição judaico-cristã, Micha-El que significa:
O semblante de Deus, a face de Deus ou quem é como Deus.
Alinhamento geográfico perfeito que une sete santuários e mosteiros dedicados ao arcanjo, regente de nossa época, começando na Irlanda e que, numa linha reta como uma espada, aponta para Jerusalém.
Pouco a pouco, a definição de que lado da linha iriamos vivenciar numa única viagem - a parte Celta no norte da Irlanda e na terra do rei Arthur ou na parte Grega-Romana, a viagem se construiu em grupo e as diretrizes foram se estabelecendo. O roteiro escolhido foi ´Symi, Monte Gargano e Monte San Michele´. Locais geográficos e espirituais tradicionalmente ligados à força, coragem e à inteligência cósmica do arcanjo Micael (de 1879 até os dias de hoje). Sempre com a meta de finalizar a viagem com as descobertas do grande centro de mistérios atual, o Goetheanum.
Aos poucos pude sentir como as conversas não eram só sobre Micael, mas também sobre a jornada, que bem poderiam se espelhar nas vivencias de Ulisses, o herói no seu retorno da guerra de Troia, enfrentando seus deuses e as forças adversas. Para lidar com estes desafios de logísticas tínhamos uma equipe em Terra Brasilis para ajustar e monitorar todos os caminhos e lugares que iriamos parar e observar, meditar, orar, comungar, até as tarefas mais banais para nós - pobres mortais -, comer e dormir. Todo o final de dia, tínhamos nossa roda para trocas, mostrando nossas descobertas, entre pinceladas e formas, e nosso caderno de viagem foi folha a folha se construindo, como um jornal impresso individual mostrando a poética de cada uma das viajantes.
Sai de São Paulo rumo a ilha de Rhodes e confesso que com um pequeno frio na barriga já que a missão da condução era solitária, esperando as viajantes animadas.
Rhodes, a maior das ilhas do Dodecaneso, situadas no mar Egeu e um importante porto de parada entre as milhares de ilhas gregas, a que Micael escolheu para o seu aparecimento na pequena Symi colorida em tons pasteis, terra das esponjas do mar. Fizemos a travessia no mar com ventos a favor, em um barco bem grande. A segunda parada do outro lado da montanha numa enseada protegida, despontou o pequeno porto com o brilhante Mosteiro Ortodoxo Grego Parnomitis, revelando o cristianismo bem primitivo.
De frente para o grande ícone no tamanho da verdadeira grandeza, surgiu Micael com uma capa em relevo prata. Juntas nós observamos como cada um dos visitantes se relacionava com a majestade de Micael.
No pôr do sol - e por isso a terapia artística existe nesta viagem -, após tantos azuis espelhados em nossos olhos, fomos à praia com nosso material absorver a luz no crepúsculo laranja, transformando-o numa aquarela panorâmica.
No dia seguinte, seguimos caminhando na beira do mar azul - que nesse dia estava turquesa -, a caminho de uma nova vivência. Chegamos à caverna de Micael dentro da rocha escura, e em meio de tantas oferendas em velas e ícones, Madalena estava por lá.
No ambiente acolhedor, com peregrinos do mundo todo, o nosso grupo pintava e observava.
Após o tempo de cada uma, a jornada seguiu, experimentamos o elemento água e, claro, a água solta relaxa, diverte, cria laços. Voltamos a ser crianças por uma hora brincando de observar as formas milenares das rochas que estavam à nossa volta e dentro do mar, reveladas na água da aquarela e estendidas no formato panorâmico.
Na sequência seguimos caminhando em direção às muralhas de Rhodes, para conhecer a rua dos Cavaleiros, os templários que usavam a ilha como descanso e abastecimento para as suas cruzadas. Por lá encontramos as várias hospedarias de cavaleiros, vindos de além-mar.
Na sequência, a missão era se aproximar dos mistérios antigos do Oriente e entender e comparar a Cristologia e as divindades Gregas, na 4a época pós-atlântica, onde o ser humano desenvolveu a ‘alma da razão e da índole’.
Seguimos pelo ar para Atenas, subimos o Monte do Olimpo para pintar a Acrópole, o Partenon e o Templo com as Cariátides - sacerdotisas que sustentavam o Erecteion.
Vimos no Novo Museu da Acrópole as esculturas originais, que são bem proporcionais, com mais de 2 metros de altura. Traços jovens cuidadosamente esculpidos, cabelos bem trançados e vestes drapeadas, uma diferente da outra.
Bom lembrar da dança circular que tivemos a honra de fazer ao lado do templo onde estas jovens faziam o mesmo tipo de dança, para invocar os melhores presságios, já que a nossa jornada estava só começando. Mas não chegamos a fazer uma libação, como as cariátides que provavelmente carregavam uma ânfora em seus braços em devoção aos deuses. Perto dali fomos visitar uma igreja ortodoxa como forma de agradecimento pela vivência neste centro de mistérios antigos.
Em mais um dia de jornada, subimos e dormimos na encosta do Monte Parnaso, uma famosa montanha em pedra de calcário na Grécia central, com 2.457 metros de altitude, acima da antiga cidade de Delfos e ao norte do golfo de Corinto. Nossa caminhada foi serpenteando até o templo de Apolo, com paradas para pintar e conhecer o museu de Delfos, reverenciado por todo o mundo grego como o Omphalos, o centro do universo antigo. Dali seguimos até o aeroporto de Atenas direto para a cidade de Bari no mar Adriático. Seguindo a viagem, de ônibus numa noite chuvosa, subimos a montanha com sua pista estreita até o Monte Sant'Angelo (Puglia).
Chegou então o grande dia - 29 de setembro de 2025 - o dia de Micael. A cidadezinha que acolhe muitos peregrinos, estava em festa. A missão do dia foi vivenciar a experiência de Micael em nossos corações e na comunidade. Descemos as escadarias para a caverna com um grande vão central e qual a surpresa chegarmos durante uma cerebração em que o sacerdote honrava os peregrinos, monges jesuítas que subiram a montanha a pé na noite anterior. Ali pudemos viver a força e a veneração ao arcanjo Micael que apareceu para São Lourenço Maiorano, indicando o local do santuário, iniciado no longínquo ano de 490 d.C.
A energia do local do aparecimento é indescritível, pudemos fazer meditações e ficamos em um local preservadas de toda a multidão de peregrinos.
Depois, o nosso grupo saiu em procissão junto do cortejo que reverenciava Micael. Todas ganharam sorrisos, pertencimentos e bençãos de Micael - dia pleno -, foi percebido na roda de conversas, tendo o pôr do sol como cenário.
E não podemos deixar de mencionar a ida especial à Pinacoteca Corrado Giaquinto em Bari, para ver uma pintura medieval de Micael pesando as almas. Ali pude dar uma aula sobre o olhar de Micael para a nossa época e realizarmos uma observação Goethanística quadrimembrada da obra.
Mais um passo, a Sacra Di San Michele (Itália): o olhar de longe no caminho mostra o divino num complexo construído entre os anos de 983 e 987 d.C sobre uma enorme rocha do Vale de Susa, na região do Piemonte, abadia fortificada construída no topo de uma montanha rochosa, simbolizando o domínio das forças da terra pelo espírito - o domínio sobre o dragão -, dando para sentir esta força em nossos corações.
No alto da montanha, fomos recebidos por uma escultura de Micael e a sua espada de ferro meteórico. Pudemos vivenciar a sua força - a coragem.
Micael não mata o dragão; ele o domina e o subjuga sob seus pés, como podemos ver na escultura neste Centro. Escolhemos pintar os pórticos onde estão esculpidas as forças zodiacais em mármore de carrara, para que cada uma de nós tivesse contato com a sua individualidade, a sua hora e local sagrado de encarnação para esta vida. E lembramos do nosso destino cármico por estarmos nesta viagem em comunidade, partilhando saberes, já que cada uma escolheu um local, monumento ou obra para estudar e compartilhar com o grupo na viagem.
A aventura seguiu de trem para Basel, rumo ao centro de mistérios modernos, de acordo com a antroposofia. Mais tarde, aos pés da montanha desenhamos a arquitetura diferente como uma grande construção gótica, que torna visível o invisível e, aos poucos, a curiosidade de adentrar ao edifício foi se concretizando.
No outro dia fomos visitar uma exposição de obras de artistas antroposóficos na Klinik Arlesheim - antiga Clínica Ita Wegman -, onde fomos recebidas por um chef mineiro com uma deliciosa sobremesa de ruibarbo. Sabor inigualável, com calor brasileiro, ali tivemos contato com a arte terapêutica do metal, terapia em vidro coloridos e pintamos as cores do outono, amarelo e laranjas indescritíveis para quem mora num país tropical.
No dia seguinte, o grande dia da nossa visita à parte interna do espaço colorido, com formas orgânicas mostrando uma arquitetura adaptada à escala do humano. Como arquiteta pude me deleitar com os detalhes dos vitrais, colunas e a beleza do teto do grande teatro.
Preenchida de emoções levei o grupo ao museu de Basel para uma aula de expressionismo, a arte de revelar e expressar o que a alma está passando.
No dia de partir e voltar para a casa, ainda seguimos em direção a Colmar ao museu de Interlinden, para ver as obras de cura do altar, restaurado em cores vibrantes originais, pintadas por Matthias Grünewald - Altar de Inssenheim: Crucificação, em 1515. Pudemos pintar a obra e gentilmente nos foram oferecidas cadeiras para ficarmos em volta da obra e somente desenhar, com a recomendação para que não danificássemos a obra com cor e água.
Foi uma experiencia para nós brasileiros, porque desenhar traz uma nova qualidade no observar.
O que pensas ser fácil é o que é difícil, é olhar e ver bem-visto o que está diante dos teus olhos.
(Goethe)
Após a vivência nos caminhos iniciáticos micaélicos, o fechamento da viagem aconteceu nas exposições no Espaço Cultural Rudolf Steiner, em São Paulo e na Associação Sagres, em Florianópolis. Montamos belas cortinas coloridas, com as dobraduras aquareladas em nossa viagem.
Eu com certeza, segundo a cosmologia antroposófica, percebi Micael como regente da nossa atual época, me inspirando a tomar as rédeas do meu próprio destino e superar o medo com discernimento.
Estefanelli Becker | É arquiteta, terapeuta artística antroposófica, atualmente Presidente da Associação dos Terapeutas Artísticos Antroposóficos (AURORAABTAA), professora e facilitadora de cursos em Terapia Artística pela Toré, Aurora, Sagres e Líder de si. Pesquisa os temas de Madonas terapêuticas, Madalena, Chartres, Micael e o Espiritual na Arte, que apresenta em seus cursos. Sua biografia inclui cursos de arte em Londres (2009) e na École du Louvre, em Paris (2011). Após esse período, passou a lecionar História da Arte Renascentista e Contemporânea. Dedica-se à arte da aquarela, com exposições representando o Brasil em mostras internacionais — Itália, Portugal, Índia, Vietnã e EUA. Conduz viajantes para aquarelar nos Caminhos de Madalena, Chartres e nos centros de mistérios de Micael. Seguirá neste "caminho da aquarela, viagens e experiências até que suas forças permitirem, trazendo a poética para a sua vida pessoal, cura e estudos para o conhecimento da arte e do espiritual na história da humanidade".
Contato | Estefanelli Becker: +55 11 99183-0160 | estefanelli.becker@gmail.com | Instagram: @estefanelli_becker
Fotografias e pinturas | Arquivo da viagem que Estefanelli conduziu; acervo da autora.