Na antroposofia, como ciência espiritual, o ser Cristo importa. No entanto esse fato não determina, tampouco limita ou vincula a antroposofia à religião. Antroposofia é ciência sobre o espírito, é a Ciência Espiritual na atualidade, ao descrever o percurso da consciência de humanização do ser Eu. A consciência do humanizar-se abre o conhecimento de si próprio ao conhecimento do que é inacessível ao nosso contexto sensorial, o mundo espiritual. Sob esta ótica podemos considerar a antroposofia como uma abordagem científica do ser humano oculto. A alma humana contém em si uma força habilitada para despertar o nascimento da presença do seu próprio ser espiritual que o eleva ao espírito do mundo, contemplando-se.
No ser humano, a vida, a alma e o Eu são fatos ocultos ao sensorial. Apesar de ocultos nós não ignoramos suas existências. Uma ordem moral humana, de propriedade estritamente espiritual, agrega-se à Terra, onde na natureza imperam as leis naturais. Da realização humana, no trabalho e na edificação de sua obra, se ergue na natureza a ordem moral. Ordem natural física material e ordem moral humana espiritual corroboram em harmonia na Terra. A ordem espiritual humana na Terra tem como propósito inato o bem. Ao longo de sua vida todo indivíduo humano imprime o seu rastro, a sua pegada na face da Terra. A obra humana na Terra, como fruto do rastro e da pegada espiritual de ordem moral, é imensurável. Recentemente, em 2020, a massa da obra humana, a massa antropogênica, superou a soma da biomassa global, a soma da massa de todos os seres vivos (vegetal e animal), incluindo a soma das massas de todos os seres humanos que habitam a Terra (NATURE / Weizmann Wonder Wander (Israel) – 09.12.2020). A obra humana de ordem moral é meio de revelação do espírito humano, que entretece e se agrega à ordem natural no físico da Terra. Uma criança que nasceu a partir de 2021 adentrou a um mundo cuja massa da obra criada pelos seus semelhantes é maior que a massa da obra conjunta de todos os seres vivos que habitam a Terra.
As percepções sensoriais por meio de seu contexto complexo e múltiplo estimulam, enquanto estamos despertos em nossas atividades do dia a dia, o nosso ser anímico no pensar, no sentir e no querer. Continuamente a alma se dispõe às nossas percepções para atender às demandas da nossa compreensão, da emissão de juízo de valor e dos impulsos de nossas ações no mundo. No sentir nós desenvolvemos uma relação específica e inusitada para com o mundo. Enquanto o pensar está principalmente atendendo ao que nos vincula ao espaço e o querer, por meio de nossas ações, nos soma e une às forças do mundo, o sentir nos entretece ao tempo. O tempo para nós seres humanos é determinado pelo movimento do planeta que habitamos, a Terra, o seu ciclo de rotação diária em seu próprio eixo, pela movimentação anual da Terra em torno do Sol e pela movimentação do nosso sistema planetário no contexto maior da esfera celeste. Continuamente estamos em movimento, partícipes de uma dança cósmica celestial. Essa dança cósmica lá fora é aqui dentro o nosso sentir.
Quando nós contemplamos o céu estrelado, separamos terra e céu. Atribuímos em cima, ao céu, cá embaixo, à terra. No pensar, a nossa compreensão precisa do discernimento na separação. Para o sentir isso é diferente. No sentir, a dinâmica é diferente: a consciência possível se dá pelo vivenciar. Na vivência a alma humana vive no pulsar e latejar do coração e do pulmão que, por meio do ritmo do tempo (a dança dos planetas, a dança cósmica) a conduz (a alma) à essência do próprio sentir (STEINER, Poema da Pedra de Fundação, GA 260, 1994: pág. 281). O sentir humano precisa do seu vínculo com o ritmo do tempo para poder viver como alma no latejo e no pulso do coração e do pulmão. Por fim, a consciência possível para a experiência do querer é a inconsciência. Nós nos unimos, identificando-nos, às forças da terra para o exercício da realização do Eu nas nossas ações e realizações.
Na alma, o sentir é uma fonte de presença espiritual que impulsiona o ser humano a pensar e agir. Nós emitimos continuamente, de maneira genuína e individual, formas de juízo de valor. Isso nos é possível por meio de um continuado movimento pendular, na vida do sentir, entre algo que nos agrada ou desagrada, o que nos atrai ou nos repele, enfim, no intermitente oscilar da vida do sentir entre a simpatia e antipatia. Na antipatia sentimos a necessidade de afastar-nos do que percebemos e vivenciamos. A antipatia consiste na contração da alma. Contrair é um distanciamento que acarreta separação. A separação é a condição para a compreensão no pensar. Na carência da separação o pensar sofre a incoerência, na incapacidade de edificar um pensamento claro e lúcido. A antipatia nos incita a pensar e compreender o mundo. E na simpatia? Nela sentimos, na expansão da alma, atração e união. Por meio da simpatia vivenciamos a necessidade de unir-nos ao que percebemos sensorialmente. Na identificação nós somos incitados à ação e agimos, externando nosso próprio ser, no mundo. Por esse viés o pensar é um sentir que na antipatia se retem na alma e compreende o que vivencia. O pensar é decorrente de um sentir que se retrai em nós. O querer brota do sentir na simpatia que externalizamos no mundo pela ação, pelo fazer. O querer é um sentir externalizado no mundo e o pensar um sentir retido em nós.
No espaço, nós percebemos sensorialmente; o tempo nos impulsiona a vivenciar e, unidos às forças da Terra e do cosmos, realizamos, na própria existência, a humanização.
Nós já tocamos os conceitos espaço e forças e podemos imaginar um vínculo do espaço com o pensar e das forças com o querer. Tudo que fazemos e realizamos transcorre em parceria íntima, unidos às forças atuantes aqui na Terra. Nós seres humanos vivemos em um campo complexo de forças, vivemos na força de pressão do ar, na força centrípeta e centrífuga decorrente da rotação e movimentação da Terra, nas forças de atrito, nas forças magnética e elétrica e em inúmeros campos de forças eletromagnéticas, dentre outras. Nesse complexo campo de forças múltiplas a força da gravidade se destaca. Por outro lado, de forma antagônica, nós seres humanos vivemos no espaço. Ele é pequeno quando nós nos referimos ao nosso lar, à nossa moradia. Ele é imensurável quando nos referimos ao espaço universal das estrelas fixas. No entanto, esse espaço, seja ele pequeno ou grande, nós o abarcamos por inteiro com a nossa percepção sensorial. Isso só é possível na existência do que denominamos luz. Muitos estudiosos e cientistas pesquisaram a luz. Hoje admitimos da luz como sendo um fenômeno de dupla ordem. Ora a luz é compreendida como onda, ora como partícula. Tanto uma como outra, estão em movimento, ou de propagação retilínea ou de oscilação. Para a luz inexiste a condição estacionária, inexiste a inércia. Nessa abordagem admite-se a possibilidade da inexistência de luz, na ausência dela. A ausência de luz denominamos de escuridão. Na ciência supõe-se a escuridão como o oposto da luz.
Sem poder entrar em detalhes no contexto deste texto, a antroposofia nos conduz a uma compreensão da luz que nos surpreende. Luz é invisível para a percepção sensorial humana. O que nós vemos vinculado à luz são as cores. Cores nas mais variadas e diversificadas manifestações. Cores mais intensas e menos acentuadas. Vemos incandescência na cor. Estrelas, Sol, Lua e planetas são pontos coloridos no céu, poucas delas são bem intensas e muitas outras são suaves e sensíveis. Luz por si só é uma essência oculta, luz é ser! Nesse sentido as cores no mundo são o meio para que possamos admirar a revelação da luz (espírito) no físico visível. O que se opõe à luz, o inverso de luz não é a escuridão. A luz é polaridade de força. E é curioso que, assim como a luz, forças também são inacessíveis ao sensorial humano. Isso nos conduz à imagem de que nós seres humanos somos, por meio do nosso sentir, um ser temporal que se realiza no mundo no momento presente, inserido continuamente na existência de luz e de forças, na graça de, ora poder se separar desse contexto e compreender o mundo, quando pensamos e, ora poder se unir ao contexto e criar no mundo, quando queremos.
Na assembleia constituinte da Sociedade Antroposófica Geral no Goetheanum na passagem de ano de 1923-’24 Rudolf Steiner apresenta, como esteio dessa sociedade nos corações das pessoas presentes, o Poema da Pedra de Fundação (STEINER, GA 260, 1994: pág. 281). Esse poema trata da alma humana. É uma composição poética de quatro quadros. Os três primeiros quadros tratam do querer, sentir e pensar. O quatro quadro se destaca do conjunto anterior e entretece a alma individual ao social, unindo-a ao que importa de fato à existência da antroposofia, ao impulso de iniciativa do Eu humano no movimento antroposófico.