Cosmopolitismo e atualidade
A necessidade do impulso micaélico
por Seção de Jovens
A necessidade do impulso micaélico
por Seção de Jovens
“Perseverança ganhou do sórdido fingimento e disso tudo nasceu o amor”, canta Jorge Ben Jor em sua música Jorge da Capadócia trazendo a imagem da conquista do dragão. Este impulso, ou qualidade micaélica, pode ser visto ao longo da história em diversas culturas, como por exemplo na divindade Mithra nos RigVeda e Avesta, em Marduk contra Tiamat no Enuma Elish, em Ogum ou Guaraci nas tradições afropindorâmicas, e ainda sob a forma de Micael ou São Miguel na tradição judaico-cristã. Observando essas diversas formas, podemos perceber que existem qualidades em comum que confluem delas, ou seja, uma força que contrapõe o mal e que se revela organicamente sob uma diversidade de formas. Essa é geralmente a primeira qualidade micaélica a ser notada e mais presente em nossa cultura: a da batalha contra o dragão.
Adotamos nessa reflexão uma postura de pesquisa que parte dos princípios antroposóficos. Observamos fatos históricos e, por um lado, a partir deles, buscamos conhecer as forças que os impulsionaram. Por outro lado, notamos como esses próprios acontecimentos, após serem impulsionados e se desenrolarem em nossa realidade humana, também são recebidos por forças espirituais que os transformam e voltam a estimular o reaparecimento dessas conjunturas, agora com outras roupagens culturais, em momentos históricos posteriores. Para tal reflexão também, tivemos a contribuição de uma inspiradora conversa com Marli Pereira que é cofundadora do Movimento Pindorama. Com nossas curiosidades a respeito das influências do Arcanjo Micael no nosso tempo e lugar, tivemos a oportunidade de pegar carona nessas tantas décadas de pesquisa histórica e espiritual do Movimento Pindorama e da própria Marli, o que não poderia passar sem o registro da nossa gratidão por essa partilha de tantos conhecimentos.
Chegamos então em outra qualidade do regente da atual era do desenvolvimento da ‘alma da consciência’, elucidada por Rudolf Steiner em sua obra, que é o cosmopolitismo. Essa segunda qualidade pode ser verificada, facilmente, partindo de fatos corriqueiros que pipocam nos tempos atuais. Um deles é a facilidade ao acesso a outras culturas por meio da internet, outro, o crescimento do interesse de artistas, curadores e público no geral, por distintas cosmovisões que porventura possam ser apresentadas em exposições, mostras e festivais artísticos. Podemos ver essa diversidade até mesmo na reestruturação dos temas trabalhados em sala de aula, que hoje partem de uma busca por apresentar uma realidade mais complexa e formada de diversas fontes, não encontrando satisfação na repetição de cânones. Esses movimentos presentes em nosso tempo, ganham ainda outro contorno quando olhamos para o nosso espaço enquanto profissionais. Podemos perceber a força que essa curiosidade e dedicação construiu, o que hoje observamos refletida na possibilidade de diversidade para além dos campos estanques das especialidades, chegando no dia a dia, portanto, em assuntos que não necessariamente nos são os mais caros e pelos quais, pela ampla oferta, as nuances ficam mais evidentes.
Operários, 1933 | Tarsila do Amaral
A alma brasileira, formada por muitas dores e tesouros, prossegue seu desenvolvimento neste tempo da nova regência de Micael — que se iniciou em 1879 para todas as culturas da Terra —, com forte aspiração ao cosmopolitismo, tendo já em seu nascedouro o caldeirão cultural de sangue e convivência entre portugueses, espanhóis, centenas de etnias de povos originários e diversas culturas dos povos africanos de Angola, Congo, Benin, Nigéria, Moçambique etc. Após a abolição da escravatura, no fim do século XIX, devido a motivações étnico-econômicas, a alma brasileira se abriu novamente acolhendo italianos, alemães, japoneses, sírio-libaneses, chineses, coreanos, sul-americanos e caribenhos. Torna-se inevitável buscar confluências entre a força micaélica e a qualidade da alma brasileira.
O nosso povo carrega o impulso de interessar-se pelo diferente, pelo mistério do outro; ele traz consigo uma habilidade de estar junto com aquilo que não se conhece, de até mesmo se aproximar desse desconhecido e conviver com o diferente. Neste tempo que envolve e dá espaço, nos é possível cultivar a habilidade de chegar em conceitos cheios de imagens — conceitos vivos — que podem ser mais facilmente comunicados e, deste modo, aprofundar essa convivência com o diferente.
Essa reflexão não é uma negação de que vivemos em tempos esquisitos, com visões limitadas por algoritmos, jornais, ambientes sociais e outros fatores que só nos reforçam o que já acreditamos. Isso tudo também existe e faz parte; é o combate com os dragões da modernidade. A possibilidade e a capacidade de cultivar o interesse pelo mistério do outro, por si só não é garantia de conquista dessa habilidade. Mas o potencial existe, só depende de coragem, liberdade e amor para ele se concretizar.
Yuri Cetra e Laura Signorelli | Texto concebido por dois integrantes da Seção de Jovens no Brasil: Yuri Cetra e Laura Signorelli. Yuri é cineasta e estudante de história e Laura é iluminadora, pesquisadora e produtora cultural.
Seção de Jovens | A Seção de Jovens dedica-se a promover e incentivar encontros, trocas, aprofundamento e iniciativa entre jovens interessados no movimento e na Sociedade Antroposófica e na Escola Superior de Ciência do Espírito. A Escola Superior de Ciência do Espírito se fundamenta em práticas e orientações contemplativas destinadas a expandir o conhecimento e a compreensão contemporâneos na direção das dimensões espirituais do ser humano e do mundo em geral, e na renovação que essa expansão pode oferecer em todos os campos da sociedade e da vida contemporâneas.
Operários | Ficha técnica da pintura utilizada:
Artista: Tarsila do Amaral (Capivari/SP, 1886 – São Paulo/SP, 1973)
Título da obra : Operários, 1933
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 151 x 207 x 3,5 cm
Pertence ao: Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo
Saiba mais sobre essa pintura de Tarsila do Amaral no site do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.